Indígenas Assurini receberam empresários dos setores de decoração e artesanato para imersão cultural na aldeia. ‘Assumiram total autonomia’, diz antropóloga.
Por g1 Pará — Belém 24/05/2024 12h44 Atualizado há 3 dias
Povo Assurini, no Pará, aposta em intercâmbio cultural com empresários dos setores de decoração e artesanato. — Foto: Paiol / Divulgação
Indígenas do povo Asurini, no Pará, estão abrindo a comunidade tradicional para que empresários dos ramos de artesanato e decoração façam imersão cultural. A ideia movimentou R$85 mil durante o Primeiro Encontro de Negócios Indígenas do Médio Xingu, realizado no início de maio.
Foram dez representantes de empresas participantes na iniciativa, idealizada por Ricardo Pedroso. “No final de 2023, fui procurado pela liderança da Aldeia ITA.aka para ajudá-los a organizar alojamentos dos Jogos Indígenas. Com isso, tive a ideia de convidar alguns dos principais empresários desta cadeia do artesanato a fim de incentivar a compra de peças artesanais, permitindo a geração de renda para a aldeia e a conexão entre produtores e compradores”, ele explica.
O evento buscou realizar novas parcerias entre indígenas e o representantes do mercado, além de promover a sustentabilidade por meio da produção artesanal. O encontro ocorreu simultaneamente à segunda edição do Intercâmbio Cultural do Povo Asurini, que reuniu outras etnias da região para competições esportivas, troca de saberes e fortalecimento de identidades indígenas.
A antropóloga e arqueóloga Fabíola Andréa Silva, professora do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), acompanhou toda a viagem. A doutora explica que o ponto alto do encontro foi a organização da etnia na comercialização dos trabalhos de artesanato.
“Esta foi a primeira vez que os vi tendo total autonomia na formação dos preços, na negociação e na gestão de tudo o que estava acontecendo”.
Silva, que acompanha os indígenas Asurini há cerca de 26 anos, pontua que o processo de autonomia “é de extrema importância, porque além de contribuir para a geração de renda e para sustentabilidade da etnia, a ação também ajuda a incentivar a transmissão dos saberes artesanais para os mais jovens da aldeia, estimulando que a tradição do feito à mão se mantenha ao longo das próximas gerações”.
Arte indígena atrai empresários dos setores de decoração e artesanato para imersão cultural no Pará. — Foto: Paiol / Divulgação
Os participantes do intercâmbio cultural passaram oito dias imersos na região, partindo de Belém para Altamira. Depois, com mais duas horas de barco pelo rio Xingu, até chegar à aldeia ITA.Aka, onde ficaram hospedados. Eles também puderam ter contato com outras etnias, como os Paracanã, os Arara, os Kayapó e os Araweté.
Para a construção dos alojamentos nos quais os empresários ficaram hospedados, o grupo investiu cerca de R$15 mil, que serviram para a compra de materiais e para serviços de construção.
Como contrapartida, o espaço abrigará uma escola com três salas de aula dentro da aldeia que, além de oferecer formação formal, também deve funcionar como espaço para reforçar e fortalecer tradições da etnia.
“A vivência da cultura in loco nos permite trazer a história daquelas peças com maior profundidade. A experiência nos ajuda a entender melhor como os trabalhos são feitos e o contexto da produção”, comenta Lucas Lassen, fundador e diretor criativo de uma marca parceira de mais de 400 artesãos e grupos de artesanato pelo país.
O filtro de barro faz parte da cultura brasileira e vem ganhando roupagens diferentes — Foto: Da’Terra Cerâmica, Alexandre Disaro e Amantiquira / Divulgação
Referência nas casas brasileiras, o filtro de barro já faz parte da cultura nacional e, atualmente, deixa o tradicional tom natural para ganhar novos designs, cores e formatos. Simples e funcional, ele surgiu na virada do século 19 para o 20 e, embora não se tenha registro quem o criou, sabe-se que imigrantes portugueses e italianos trouxeram as primeiras velas para filtrar água ao país.
“Naquela época, os filtros eram produzidos de metais e as velas eram feitas de diferentes pedras porosas. Porém, em algum momento, no interior de São Paulo, perceberam que as jazidas de argila da região de Ribeirão Preto ofereciam um excelente material para potes de cerâmica – peças tradicionais usadas para armazenar água. A partir daí, começam a desenvolver os filtros mais populares”, revela Lucas Lassen, diretor criativo da Paiol, loja especializada em objetos com história.
Devido ao seu baixo custo, o filtro de barro se popularizou pelo Brasil como uma solução para reduzir a incidência de doenças causadas pelo consumo de água contaminada. Ele também fez sucesso por manter o líquido sempre fresco graças às propriedades do barro, que facilitam a evaporação e manutenção de temperatura na parte interna.
“Neste processo, os artesãos começaram a incluir suas identidades nestas peças que, hoje, ganham várias interpretações artísticas inspiradas no cotidiano e em elementos que acabam sendo uma expressão da cultura local”, comenta Lucas.
Abaixo, conheça quatro regiões que têm mantido viva a tradição brasileira dos filtros de barro atualmente:
Jaboticabal, no interior de São Paulo
Com tons de terracota e linhas vermelhas, filtro São João é o mais popular nas casas brasileiras — Foto: Cerâmica Stéfani / Divulgação
A cidade na região de Ribeirão Preto abriga a sede da fábrica que popularizou o uso dos filtros de barro no Brasil. A Cerâmica Stéfani foi fundada em 1947 e é a responsável pelo produção do famoso filtro São João.
A peça de linhas curvas, tom de barro e listras vermelhas se tornou um ícone nacional. Algumas características da produção – que começou de forma manual – se mantêm firmes há quase 8 décadas, mas, hoje, o processo inclui etapas industriais para manter a qualidade das peças.
Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais
Os filtros do Vale do Jequitinhonha recebem pinturas florais ou têm formato de cacto — Foto: Alexandre Disaro / Divulgação
Uma das regiões mais necessitadas do Brasil abriga também um dos principais redutos de artesanato do país, com famílias que vivem da arte há cerca de seis gerações. Além de utilitários e peças decorativas de cerâmica, destacam-se na produção local os filtros de barro com temas florais e volutas (ornamento em espiral).
As peças têm como característica principal a pintura com pigmentos naturais, que segue uma paleta de cores extraída das diferentes tonalidades de barro da região. O famoso filtro em forma de cacto é produzido no Vale do Jequitinhonha e surgiu de uma parceria entre designers e artesãos. As peças podem ser encontradas na Loja Paiol.
Serra da Capivara, no Piauí
Os filtros da Serra da Capivara, no Piauí, têm desenhos que remetem a pinturas rupestres — Foto: Amantiquira / Divulgação
A região que abriga o Parque Nacional Serra da Capivara, o maior conjunto de sítios arqueológicos das Américas, também é um polo de cerâmica. Em 1994, a Cerâmica Artesanal Serra da Capivara foi fundada no município de Coronel José Dias, visando trazer visibilidade ao parque e às suas pinturas rupestres.
À frente da iniciativa esteve a arqueóloga Niéde Guidon, que descobriu as relíquias antigas. Hoje, os desenhos se tornaram marca das cerâmicas locais e aparecem em pratos, copos, jarras, vasos, panelas e nos famosos filtros de barro, que podem ser encontrados na loja Amantiquira.
Recreio, em Minas Gerais
Recreio, em Minas Gerais, retomou a tradição artesanal local com uma nova estética — Foto: Da’Terra Cerâmica / Divulgação
A cidade na zona da mata mineira já foi um polo industrial de cerâmica e uma das principais regiões produtoras de filtros de barro do país. Atualmente, boa parte das fábricas fechou as portas, mas as amigas de infância Giany Andries e Keyla de Morais resolveram resgatar a antiga tradição. Há cerca de 3 anos, elas abriram o ateliê Da’Terra Cerâmica.
Com uma produção menor de utilitários de cerâmica, os filtros se destacam por sua estética que ressalta os elementos da natureza, como carpas, ipês, folhas de bananeira, e figuras religiosas. As cores chamativas das peças, feitas a partir da modelagem com as mãos e o torno manual, devem-se a um processo natural de pigmentação e vitrificação.
Tendo os materiais naturais como os principais pilares de sua produção, algumas etnias são reconhecidas nacional e internacionalmente
Da Redação / portald24@diarioam.com.br Publicado em 17 de abril de 2024 às 06:30
Manaus – Com a segunda maior população indígena do mundo de acordo com o IBGE, o Brasil conta com aproximadamente 900 mil indígenas, mas ainda é o maior em número de etnias. São 305 povos espalhados por todas as regiões do país e falando cerca de 274 línguas. Dentre elas, algumas utilizam seus saberes e ofícios tradicionais para conquistar independência e para gerar uma renda que acaba sendo crucial para a proteção de seus territórios e para a manutenção de seus costumes.
(Foto: Divulgação)
“Para muitas dessas etnias, o artesanato tradicional transmitido de geração a geração, tem sido uma ferramenta de fortalecimento das suas identidades. É por meio do fazer manual que eles têm conseguido não só manter vivas as suas tradições, mas também têm levado educação formal para as aldeias, têm tido mais acesso à saúde e também têm acessado bens e ferramentas que facilitam o dia a dia da aldeia, permitindo que eles tenham mais tempo para seus afazeres tradicionais”, revela Lucas Lassen, diretor da Paiol, marca que trabalha com produtos de cerca de 50 comunidades indígenas.
Artistas e artesãos da etnia Mehinaku, que tem uma população aproximada de 300 pessoas divididas em quatro aldeias, conquistaram total autonomia graças à sua extensa produção de bancos, redes e esteiras. “Aprender a lidar com o dinheiro foi uma das formas que encontramos de manter a nossa cultura viva. Para nós, esse processo começou ainda na década de 1990, quando nossos líderes viram que havia interesse comercial nas peças que produzimos e, ao invés de só fazer trocas por outras mercadorias, passamos a vender e oferecer o nosso artesanato em lojas de grandes cidades como Brasília e São Paulo”, revela o artesão e artista Kulikyrda Mehinaku, que nos últimos anos viu uma valorização dos trabalhos feitos por sua família.
Tendo os materiais naturais como os principais pilares de sua produção, algumas etnias são reconhecidas nacional e internacionalmente por conta de sua produção artística. “São panelas, redes, bancos e acessórios que continuam fazendo parte do cotidiano deles, mas que também são tidas como grandes obras de artes presentes em galerias, coleções particulares e projetos de decoração”, completa Lassen.
Na semana em que se comemora o Dia Nacional dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, conheça quatro etnias brasileiras que se destacam por seu exímio trabalho na cerâmica, madeira, palha e nos acessórios.
Baniwa – Cestaria
Com a fibra de arumã tingida, os Baniwa desenvolve trançados com grafismos próprios – Fotos Carol da SIlva (esq.) e Penelope Bianchi (dir.)
Localizado no noroeste amazônico, em uma região que se estende pelas fronteiras do Brasil com a Colômbia e a Venezuela, o povo Baniwa tem a fibra de arumã – uma espécie de cana – como principal matéria-prima. No mundo das artes, eles ganham destaque pelas cestarias, que ganham trançados com grafismos que fazem referência às suas pinturas corporais utilizadas em rituais. Por conta do arumã, que é maleável, mas naturalmente mais seco que outras fibras, as peças ganham uma certa rigidez, o que garante cestos em formatos harmônicos e curvilíneos. Para comercializar seus trabalhos, eles criaram a marca Arte Baniwa, uma parceria da OIBI (Organização Indígena da Bacia do Içana), a FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) e o ISA (Instituto Socioambiental).
Mehinaku – Bancos e Redes
O artesão Kulikyrda Mehinaku começou no artesanato ainda na adolescência – Fotos Lucas Rosin/Yankatu
Embora o Brasil tenha bancos indígenas produzidos por centenas de etnias, a produção Mehinaku está entre as mais relevantes. Localizados no Território Indígena do Xingu, no Mato Grosso, as atividades artesanais da etnia são divididas por gênero. Os homens são conhecidos pelos bancos em formatos zoomorfos, que imitam os animais da floresta. Tatus, macacos, antas, tamanduás, entre outros, ganham vida a partir de troncos de madeira. Já as mulheres, são conhecidas pelas esteiras e redes feitas com a fibra do buriti. Como toda a economia da etnia gira em torno da arte, eles têm diversificado sua produção, com acessórios e até pinturas que remetem aos grafismos da etnia.
Waurá – Cerâmica
A partir da cerâmica, os Waurá fazem panelas e potes que fazem referência à mitologia da floresta – Fotos Mariana Chama e Paiol
Também do Xingu, os Waurá (ou Waujá) têm a produção cerâmica como uma prática milenar que considera a prática como uma metáfora da identidade Waurá, sendo uma espécie de extensão de suas identidades. Suas panelas e potes em diversos tamanhos e formatos – zoomorfos ou não – ganham pinturas gráficas e lúdicas feitas a partir de pigmentos naturais como o urucum e outras plantas. Mesmo sendo consideradas obras de arte, as peças continuam sendo utilizadas no cotidiano das aldeias. “O fogo acaba apagando as lindas pinturas, mas para ele isso não é um problema, é parte do entendimento de que tudo tem um começo, um meio e um fim. Depois, eles fazem outras que, eventualmente, ficam até mais bonitas”, afirma Lassen.
Kayapó – Acessórios
Os Kayapós se destacam nos acessórios com miçangas, penas e outros materiais – Fotos Paiol + Penelope Bianchi
Localizados em uma região que se estende do Mato Grosso ao Pará, às margens de rios afluentes do rio Xingu, os Kayapós têm uma população de aproximadamente 12 mil pessoas, sendo uma das maiores etnias do país. Como o uso de roupas foi um costume adotado apenas recentemente, eles ficaram bastante conhecidos por suas pinturas, adornos e acessórios corporais. Essa característica lhes trouxe destaque na produção de acessórios, sobretudo com miçangas. Colares, brincos, pulseiras e outros acessórios ganham grafismos culturalmente ligados à etnia.
Há décadas, eles têm usado diferentes técnicas para criar peças cheias de identidade
Paiol
Celebrado no dia 19 de março, o Dia Mundial do Artesão serve para nos fazer refletir acerca da contribuição deste profissional para a formação da identidade nacional. Com técnicas e saberes que chegaram a partir da imigração ou que já nasceram aqui com os povos originários, em cada canto do país, o artesanato ganhou contornos brasileiros, assimilando características tanto dos locais, quanto das pessoas que o fazem. Neste contexto, para além da importância social e econômica deste trabalho, homenagear os artesãos é uma forma de valorizar uma riqueza que é difícil de ser mensurada, mas que é facilmente percebida por quem convive com estes grupos no dia a dia.
“Para muitos destes artesãos, a partir da modelagem do barro, do trançado de palha, do entalhe ou da tecelagem, eles criam peças que se tornam extensões ou reflexos de si mesmos. No Jequitinhonha, por exemplo, elas criam bonecas inspiradas nas características das mulheres da região. Já no Xingu, eles produzem peças que representam não só os animais silvestres, mas também os grafismos indígenas que eles utilizam no próprio corpo em rituais e cerimônias religiosas. O valor do artesanal está justamente na possibilidade do artesão imprimir na peça as suas visões, percepções e sonhos que resultam em trabalhos repletos de identidade e originalidade”, afirma Lucas Lassen, curador e diretor criativo da Paiol, que trabalha com cerca de 400 grupos de todo o Brasil.
Abaixo, descubra seis artesãos com histórias e trabalhos que valem a pena conhecer.
Mestre Jasson
Mestre Jasson é um dos destaques do artesanato alagoano – FOTOS Carlos Guerreiro, Salvador Cordaro e Felipe Brasil
Nascido no povoado de Monte Santo, em Belo Monte, no interior de Alagoas, Jasson Gonçalves da Silva figura entre os principais artesãos brasileiros com peças em museus, galerias e grandes coleções de arte popular. Mas nem sempre foi assim. Ainda jovem, em busca de trabalho, ele se mudou para Salvador, onde exerceu diversas funções até acabar em uma produtora de cerâmica. Por lá, começou a produzir pequenas peças utilitárias, aprendendo com um amigo português. Depois de 15 anos na Bahia, ele decidiu voltar à sua terra natal e tentar continuar por lá o trabalho com a cerâmica. “Não deu muito certo, porque o barro daqui da região é muito ruim. Você faz 20 peças e aproveita duas ou três, porque depois da queima, a maioria acaba quebrando”, revela o artesão.
Por influência de Maria Amélia Vieira, da Karandash, tradicional galeria de Maceió, por volta de 2013 ele acabou se dedicando à madeira, utilizando o entalhe e técnicas de encaixe que se tornaram sua marca registrada. “Um dia, ela chegou me contando uma história sobre um rei que teria se perdido na mata e que, para manter sua majestade, precisou construir um trono com galhos secos descartados de timbaúba, algarobeira e imburana, espécies típicas do sertão. Aquilo ficou na minha cabeça e eu passei a construir a partir da imaginação”, completa Jasson.
Foi aí que nasceram suas cadeiras, que têm saído do sertão para ganhar o Brasil e o mundo. Além de pinturas coloridas, as peças contam com flores, estrelas, cactos e qualquer outro elemento que habite o mundo dos sonhos do artista. Pai de cinco filhos, apenas um tem seguido os passos do pai. Mas ele também tem influenciado outros parentes e amigos a seguirem pelo caminho das artes.
Mestre Antônio Rodrigues
Antônio Rodrigues produzindo a La Ursa, personagem tradicional do carnaval pernambucano – FOTO Arquivo Pessoal e Alexandre Disaro
Morador do maior centro de artes figurativas das Américas, no bairro de Alto do Moura, na cidade de Caruaru, em Pernambuco, o artesão Antônio Rodrigues segue o legado deixado por seu pai, Zé do Caboclo que ao lado dos Mestres Vitalino e Manuel Eudócio, foi responsável por algumas das obras mais representativas do sertão nordestino. Antônio, que começou no ofício como ajudante no ateliê de seu pai fazendo pinturas e preparando a matéria-prima, fez a primeira peça aos 15 anos e, desde então, nunca mais parou.
Inspirado pela estética, fauna e flora do agreste e pelo cotidiano da vida rural, ele já criou peças com projeção nacional e internacional. Ele foi um dos artesãos brasileiros convidados para representar a arte popular brasileira no Ano do Brasil na França, que aconteceu em 2005. Além disso, uma de suas obras mais icônicas, que retrata um engenho de rapadura, é parte do acervo do Museu do Pontal, no Rio de Janeiro. Antônio também é um dos artesãos que utiliza o barro para representar a La Ursa, personagem tradicional do carnaval pernambucano. “O que me inspira é o meu quintal, as ruas, as pessoas e tudo o que se encontra por aqui”, completa o artesão.
Antônio é casado e divide o ateliê com Maria Luci, com quem teve quatro filhos, e que é responsável pela pintura de suas peças. Atualmente, Amanda, a terceira filha do casal, também segue na mesma profissão levando adiante a tradição familiar nas artes.
Anaisa Rosa
Anaísa é a quarta geração da família no artesanato – FOTOS Theo Grahl e arquivo pessoal
Filha, neta e bisneta de artesãos, Anaisa Rosa está no artesanato desde os 9 anos de idade. Hoje, aos 27, e parte da quarta geração da família na profissão, ela integra a equipe da Associação de Artesãos de Santa Brígida, criada por seu avô, José Valdo Rosa, na cidade de Santa Brígida, no interior da Bahia. Por lá, eles trabalham com duas técnicas: o trançado da fibra de Licuri e o entalhe em madeira. Seu avô foi o responsável por criar a associação, que hoje conta com pouco mais de 30 pessoas, muitas delas sendo primos, irmãos e cunhados que chegam à família já entrando no contexto do artesanato.
A fibra de licuri é utilizada para produzir peças utilitárias e decorativas, como cestas, porta-joias e fruteiras. Já a partir do entalhe na umburana – madeira nativa da região – eles criam pássaros inspirados no Galo de Campina, também conhecido como Cardeal-do-Nordeste. “Aqui é mais comum que os artesãos se dediquem mais a uma técnica ou outra, mas eu acabei aprendendo a fazer os dois, tanto o entalhe, quanto o trançado”, revela a artesã.
Nenê Cavalcanti
Nenê Cavalcanti em seu ateliê, em João Pessoa, na Paraíba, e uma de suas peças – FOTOS Arquivo pessoal e Theo Grahl
Dentre os principais nomes do estado da Paraíba nas artes plásticas, Nenê Cavalcanti foi a primeira de sua família a enveredar por este mundo. Filha de um agricultor e uma dona de casa, ela conta que seus pais – devido à simplicidade – não gostavam da ideia de ter um filho artista. “Eles não incentivavam nem um pouco quando eu era criança, porque eles queriam que nós tivéssemos um trabalho formal, de preferência na roça. Mas mesmo assim, eu já criava pequenas peças com barro”, revela.
Mais tarde, nos anos 1970, ela se mudou para João Pessoa e acabou estudando enfermagem, visto que perdeu o prazo para a prova do curso de Artes. Quando foi ingressar na área, passou a utilizar suas habilidades artísticas para trabalhar com crianças com deficiências, o que reacendeu seu interesse por se tornar artista. Desde seu retorno à faculdade no final da década de 1970 e começo de 1980, ela nunca mais parou de trabalhar com o barro e a cerâmica.
Hoje, com um trabalho que se espalhou pelo mundo em coleções particulares, eventos e exposições, suas obras estão fortemente ligadas ao universo feminino. Mulheres cheinhas, de diferentes cores e texturas de cabelo fazem parte de seu portfólio. Outro destaque fica para seus anjinhos deitados sobre as próprias pernas, que fazem referência à posição atípica que sua filha, Juliana, dormia quando bebê.
Maraki Waurá
Maraki, que entrou na profissão por influência dos pais, trabalha com diversas técnicas, mas se destaca na cerâmica – FOTO Arquivo Pessoal e Paiol/Divulgação
Filho de artesãos, Maraki Waurá (ou Waujá), é parte de uma das etnias indígenas que mais se destacam na produção artesanal brasileira, a Waurá. Reconhecidos majoritariamente pela cerâmica, com a qual produzem peças utilitárias que são verdadeiras obras de arte, eles habitam o Território Indígena do Xingu, no Mato Grosso, próximos a outras etnias com as quais dividem outras técnicas como o entalhe da madeira, o trançado de palha e o trabalho com as miçangas.
Trabalhando há mais de 20 anos como artesão, Maraki mantém a tradição de seu povo, produzindo panelas, potes e vasos zoomorfos – que imitam as formas e características dos bichos da floresta – além de criar outros elementos utilizados em rituais e cerimônias religiosas. “Mais do que ser a principal fonte de sustento da nossa aldeia, o artesanato é parte da identidade do indígena, ele é ferramenta de trabalho, é onde colocamos o alimento, onde sentamos e dormimos. É praticamente uma extensão do que nós somos”, completa o artesão.
Zezinha
Zezinha cria peças utilitárias e bonecas se inspirando nas mulheres da região do Jequitinhonha – FOTOS Arquivo Pessoal e Alexandre Disaro
Seguindo a tradição da maioria das artesãs do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, Maria José Gomes da Silva, a Zezinha, começou no artesanato ainda criança, aos 11 anos de idade, ajudando sua mãe, a também artesã Maria Gomes. “No Vale, a gente já nasce neste universo artesanal. Nossas mães, avós, bisavós e tias estão há várias décadas modelando a vida no barro”, afirma Zezinha, que também acabou influenciando a escolha profissional das duas filhas, Aline e Cláudia.
Assim como outras mulheres de sua comunidade, seu trabalho está fortemente ligado à uma infância sem brinquedos que a estimulou a usar o barro para explorar sua criatividade e a ludicidade, sobretudo na criação de bonecas. Ao longo destes mais de 40, ela tem feito peças utilitárias e decorativas, como vasos, flores, filtros e muitas outras. Mas sua predileção pelas bonecas a transformou em uma artista que tem peças em coleções de várias partes do mundo, com obras na sede da Organização das Nações Unidas – ONU, em Nova Iorque, e na coleção pessoal de Nicolas Sarkozy, ex-presidente da França.
Hoje, aos 55 anos e com uma produção propositalmente mais devagar, ela conta com a ajuda do marido, Ulisses, na comercialização e logística das peças.
Entidade tem homenagens na música, na arte popular e no artesanato
Iemanjá representada no artesanato baiano – Foto: Penellope Bianchi
Em 2 de fevereiro, comemora-se o Dia de Iemanjá. Tida como uma das figuras mais populares das religiões de matrizes africanas, a orixá é reconhecida pelo povo Iorubá como a rainha das águas.
No Brasil, o culto em sua em sua homenagem transferiu-se para o mar, visto que no processo de desenvolvimento da religiosidade africana em solo brasileiro, os rios e cachoeiras de água doce foram atribuídos à outra orixá da mitologia iorubá, Oxum.
O estado da Bahia, primeiro local a receber povos de diversas regiões do continente africano por conta do processo de colonização, se estabeleceu como o berço do Candomblé e da Umbanda, tendo o maior número de devotos destas religiões.
Na música, ela está presente em canções de alguns dos maiores ídolos nacionais, como Dorival Caymmi, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gal Costa, entre outros. Nas artes manuais, ela também se destaca em diferentes formatos, técnicas e materiais.
“A Bahia é o local que mais concentra artesãos e artistas populares que representam esta entidade por conta do processo histórico que a levou a ser a região do Brasil com o maior número de pessoas de origem africana. E embora cada artista ou artesão imprima a sua própria identidade, as diferentes Iemanjás que encontramos por lá carregam consigo algumas características específicas que nos permitem identificá-la. O vestido, quase sempre em tons de azul, e o espelho na mão direita são alguns desses elementos”, revela Lucas Lassen, curador e diretor criativo da Paiol, uma das principais lojas de artesanato de tradição e arte popular do país.
O nome Iemanjá vem da expressão “Yéyé Omó Ejá”, que numa tradução literal seria algo como “mãe cujos filhos são peixes”. Como resultado do sincretismo religioso brasileiro, que associa figuras africanas e indígenas a símbolos da Igreja Católica, Iemanjá também é frequentemente relacionada à Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora das Candeias e até mesmo à Virgem Maria. Por meio da cerâmica, do metal e outras técnicas, artesãos baianos têm utilizado a criatividade para representar sua fé e devoção àquela que é considerada a rainha do mar.
Jan Araújo | Lençóis, Chapada Diamantina
Nascido em Salvador, mas criado em Lençóis, na Chapada Diamantina, Jan Araújo começou no artesanato por influência de seu pai, que também é ceramista. Com ele, trabalhou dos 13 aos 26 anos, quando decidiu deixar o ofício para se aventurar em outras áreas.
Longe do fazer manual e em outras cidades, ele trabalhou em um campo de Golf e também em lojas de equipamentos para trilhas, visto que a região da Chapada é reconhecida por suas montanhas. “Por mais que a gente tente se afastar da arte, aquele que é artista sempre acaba se reaproximando dela”, revela. E assim ele o fez.
Em 2011, depois de voltar ao ateliê, ele levou algumas peças para uma feira de negócios para artesãos realizada pelo Sebrae. “Lá, eu vendi todas as obras e saí com várias encomendas. Foi o sinal que eu precisava para seguir com este trabalho”, afirma Jan.
Inspirado pela artista plástica Eliana Kertész, Jan Araújo diz gostar de fazer peças “cheinhas”
Embora não siga uma religião de matriz africana, ele diz que a relação com os orixás é parte do cotidiano da Bahia. Como isso, desde muito cedo, as entidades do Candomblé costumam fazer parte de seu portfólio. Para os orixás e outras peças,
Jan desenvolveu um estilo próprio que, segundo ele, é influenciado pelas obras da artista baiana Eliana Kertész (1945-2017), reconhecida por esculturas de mulheres volumosas e com formas arredondadas. “Eu gosto desta ideia de peças gordinhas e, no meu caso, eu acho que a cerâmica favorece este formato. Por isso, a minha Iemanjá é assim, mais cheinha, mas continua carregando os elementos que remetem ao movimento do mar”, completa.
Aless Teixeira |Salvador
Os primeiros trabalhos de Alessandro Teixeira, mais conhecido comoAless, foram ainda na adolescência, por volta dos 16 anos de idade, por influência do pai, que também é artesão. Trabalhando com o latão, o cobre e diferentes tipos de metais, ele passou a criar peças bastante populares no artesanato baiano, como a figura do peixe e as pencas de balangandãs, também conhecidas como jóias de crioulas.
Depois de sair do ateliê de seu pai em 2002, ele abriu o próprio espaço, porém, em seus processos de criação, passou a estudar as contribuições artísticas de outros nomes baianos nas artes como Jorge Amado, Mário Cravo, e também o escultor Tatti Moreno, com quem teve a chance de trabalhar por 12 anos. “Eu trabalhava metade do tempo na minha oficina e a outra metade com o Tatti. Neste período, fui aperfeiçoando minhas técnicas e desenvolvendo a minha identidade estética”, diz Aless.
Aless utiliza os metais para dar vida às suas criações
Sua relação com os orixás vem de sua religião, o Candomblé, onde ele é Ogã suspenso por Iemanjá, o que significa que elé um tipo de sacerdote que, durante os rituais litúrgicos, atua como uma espécie de zelador da casa, mantendo a segurança e dando suporte a todos aqueles que incorporam os orixás, além disso, é responsável pelo toque dos atabaques e pelas oferendas.
“O terreiro que eu frequento é regido por Iemanjá e a minha relação com ela é muito forte. Por isso, no meu trabalho, eu gosto de manter as características litúrgicas, não só com ela, mas com qualquer entidade religiosa. Acho que é importante manter as características originais”, completa.
Karla Issa | Salvador
Nascida e criada em Salvador, Karla Issa começou a se interessar pelo artesanato aos 15 anos, quando passou a fazer as próprias roupas, a produzir colares com estética africana feitos com pedrarias e a vendê-los no centro histórico da cidade. “Por parte de mãe, quase todos tinham alguma habilidade artística desenvolvida de forma autodidata. Além disso, nos anos 1970, ainda existia uma aura meio hippie no mundo que nos incentivava a criar coisas”, revela. Mais tarde, ela se formou em Assistência Social, profissão que exerce até hoje e que divide o tempo com os trabalhos artesanais.
Karla Issa faz pequenos oratórios em homenagem a orixás e santos católicos
Sua relação com os orixás também vem de sua religião. No Candomblé, Karla é Ekedi, posto feminino de alta importância, cuja função é zelar pelos seus companheiros em transe tomados pelos orixás no momento dos rituais. Utilizando materiais majoritariamente reciclados, seus trabalhos estão fortemente ligados às liturgias religiosas. Karla faz escapulários e oratórios, utilizando retalhos de couro, caixas de fósforo e técnicas de pintura. Dentre elas, as peças mais procuradas por clientes costumam ser de Iemanjá.
Mestre Gerard e Elson | Barra
No oeste da Bahia, às margens do encontro entre o Rio São Francisco e o Rio Grande, está a cidade de Barra, onde nasceu o artesãoJosé Geraldo Machado da Silva, mais conhecido como Mestre Gerard, por causa de um apelido de infância que ele adotou como nome artístico. Católico de criação e candomblecista por iniciação, ele utiliza o barro dos rios que cortam a cidade para criar esculturas que refletem o sincretismo religioso.
De forma autodidata e inspirado pelas histórias que ouvia quando criança, de que os escravizados cultuavam os orixás usando santos católicos, ele cria peças que retratam duas imagens em uma. Assim, Oxóssi se mistura com a bravura de São Jorge e as vestes de Nossa Senhora das Candeias com as de Iemanjá, formando peças nas quais as duas crenças convivem em harmonia.
Gerard tem ensinado seu ofício a dezenas de artesãos ao longo do tempo
Além de artesão, Gerard é Babalorixá do terreiro Pai Xangô das Cachoeiras, local onde mora e no qual também funciona seu ateliê escola, onde tem ensinado gratuitamente diversos artesãos. Elson Alves, seu primeiro discípulo, trabalha em conjunto com o mestre desde 1994, não só no ateliê, mas também nas atividades do terreiro. “Ele é meu tio de segundo grau e, boa parte do que sei foi ele quem me ensinou. Dia 2 de fevereiro, para nós é uma data importante, porque fazemos um cortejo especial para Iemanjá que atravessa parte da cidade celebrando a grandeza desta orixá”, finaliza Elson.
Peças foram desenvolvidas por artesãs do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais
A partir do dia 30 de janeiro, a Casa Bonita, atacadista do setor de decoração, apresenta a Coleção Linhas e Curvas, inspirada na obra do arquiteto Oscar Niemeyer. A coleção, idealizada por Cecília Rima, diretora da Casa Bonita, Lucas Lassen, curador e diretor criativo da Paiol, e Lucila Turqueto, da Casa de Valentina, conta com 15 peças decorativas de cerâmica feitas por artesãs do Vale do Jequitinhonha.
.“Sempre me interessei pela ousadia e o brilhantismo do Oscar Niemeyer. Numa conversa com a Ciça e o Lucas surgiu a ideia de trazer essa referência para a cerâmica. Depois que as artesãs aceitaram o desafio começamos os estudos e aos poucos a coleção começou a ser construída. Quando ficou pronta o resultado encantou a todos nós”, revela Lucila.
.Produzidas por 15 artesãos de Campo Buriti, Campo Alegre e Poço D’água, as peças ganham uma coloração que puxa para os tons dourados, com pigmentos produzidos naturalmente a partir de diferentes tipos e tonalidades do barro. De acordo com Cecília, o processo durou aproximadamente um ano. “São cachepots, garrafas, vasos, pratos e potes com grafismos que remetem ao legado do arquiteto e, algumas das peças, em formatos que até então não tinham sido criados pelos artesãos”, completa.
Entre as peças, as boleiras se assimilam ao Museu de Arte Contemporânea de Niterói – Créditos Cacá Bratke e Karin Gimenes
Outras travessas têm grafismos em referência à Catedral Metropolitana de Brasília – Créditos Cacá Bratke e Karin Gimenes
Esta é a quarta coleção que resulta de uma parceria entre Cecília, Lucas Lassen e artesãos do Jequitinhonha. Morador de Campo Buriti desde 2020, Lucas se divide entre o Vale e a cidade de São Paulo, e tem sido um agente importante na interlocução entre as artesãs e grandes redes varejistas e atacadistas. Juntos, eles já lançaram Mulheres do Vale, Raízes do Vale e Cores e Mãos do Cerrado. As duas últimas chegaram a ser apresentadas na Maison Objet, uma das principais feiras internacionais de decoração que acontece em Paris, na França.
.“A ideia é sempre buscar a sustentabilidade econômica e social da comunidade por meio do artesanato. Por isso, sempre pulverizamos o trabalho entre diversos artesãos. Neste caso, a produção das peças segue os mesmos moldes das peças tradicionais, mas o que tem mudado é a possibilidade deles utilizarem as mesmas técnicas e a criatividade para ampliar o seu portfólio de produtos sem perder a sua identidade. Isso contribui não só para o aumento da renda na comunidade, mas também estimula os jovens a darem continuidade a esta técnica secular na região”, finaliza Lucas.
.O lançamento ocorre na ABUP Decor Show, evento da Associação Brasileira de Empresas de Utilidades e Presentes, que ocorre até o dia 3 de fevereiro e é voltada para lojistas, arquitetos, engenheiros e designers de interiores. Os visitantes devem se credenciar pelo site.
.Serviço
ABUP Decor Show – Stand Casa Bonita
30 de janeiro a 3 de fevereiro de 2024
PRO MAGNO Centro de Eventos – Av. Profa. Ida Kolb, 513 – Jardim das Laranjeiras, São Paulo
.By Angelo Miguel | Bacuri Comunicação
Imagens: Créditos Cacá Bratke e Karin Gimenes
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Linha que liga a zona oeste ao centro de São Paulo, tem em seu entorno, museus, exposições, lojas de arte popular e galeria que é ícone na cidade
Foto: Diogo Moreira / A2 Fotografia
Embora boa parte da população paulistana esteja fora da cidade no mês de janeiro por conta das férias escolares e coletivas, São Paulo se mantém como uma grande fonte de atividades culturais para turistas de outros locais e moradores que decidiram não viajar. Neste sentido, um dos destaques fica para o percurso no entorno da linha amarela do metrô, que interliga a Vila Sônia, na zona oeste, à Luz, no centro da cidade. Transportando cerca de 800 mil pessoas diariamente, a região é reconhecida como o principal pólo cultural de São Paulo por reunir museus, lojas de artesanato brasileiro, galerias, entre outros espaços. Abaixo, listamos algumas atrações que ficam a poucos metros de algumas das principais estações da linha.
Museu da Língua Portuguesa | Estação da Luz
Museu da Língua Portuguesa. Fotos: Dianarchitect / Divulgação
Na cidade com o maior número de falantes da língua portuguesa no mundo, a estação da Luz abriga um museu dedicado à língua. O Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado em 2006 com projeto assinado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha e é uma iniciativa da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, em parceria com a Fundação Roberto Marinho. Por lá, é possível conhecer a história do idioma, passando por suas raízes latinas e interações indígenas, africanas, árabes, entre outras. O museu mistura diferentes tecnologias, trazendo dezenas de atrações interativas, conteúdo audiovisual e salas imersivas. Entre 2015 e 2021, a instituição esteve fechada por conta de um incêndio. Porém, agora o prédio ganhou aperfeiçoamentos na infraestrutura, recursos de acessibilidade física e segurança. Até o dia 26/01, sempre de terça a sábado, das 10h às 17h, o museu está com a Estação Férias – Brincadeiras Musicais, na qual oferece brincadeiras, jogos lúdicos, karaokê ambulante, oficinas e apresentações artísticas que dialogam com o tema da atual mostra temporária, Essa nossa canção, sobre a relação da língua portuguesa com a canção popular brasileira. Para participar desta programação, não precisa pagar nada: só chegar e brincar.
Onde: Praça da Luz – Ao lado da Estação da Luz
Quando: de terça-feira a domingo, das 9h às 16h30. Quem entrar neste último horário pode ficar até as 18h.
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).
Aos sábados, a visitação é grátis. Crianças até 7 anos não pagam.
Mais informações: Venda de ingressos na bilheteria e pela internet
Paiol | Estação Fradique Coutinho
Fotos: Salvador Cordaro
Uma das principais referências em artesanato de tradição e arte popular na cidade, a Paiol é uma loja que reúne trabalhos de mais de 400 grupos e artesãos de todas as regiões do Brasil. Com uma recém-inaugurada unidade na esquina entre a Rua Fradique Coutinho e Arthur de Azevedo, em Pinheiros, da zona oeste de São Paulo, além da venda, o espaço propõe também experiências imersivas. Com cerca de 130m² a loja recebeu uma nova roupagem para promover um mergulho do visitante pelo universo da arte popular brasileira, com referências que passam sobretudo por contribuições indígenas e pelo movimento armorial. Atualmente, é possível visitar a exposição fotográfica “Pelos olhos da gente”, com curadoria de Lucas Lassen, diretor criativo e fundador da marca, e registros feitos pelo fotógrafo Salvador Cordaro.
Onde: Rua Fradique Coutinho, 172, Pinheiros – a 3 minutos a pé da Estação Fradique
Quando: segunda a sábado, das 10h às 20h | domingo, das 11h às 18h
Quanto: Entrada gratuita. É possível encontrar trabalhos artesanais a partir de R$ 30,00
Mais informações: (11) 3063-0175 ou Instagram @lojapaiol
Instituto Artium | Estação Higienópolis-Mackenzie
Foto: Divulgação
Fundado em 2019, o Instituto Artium de Cultura, instituição sem fins lucrativos, ocupa o Palacete Stahl na Rua Piauí, em Higienópolis. A propriedade de 1700m² e arquitetura eclética, foi construída entre 1920 e 1921 no estilo Luis XVI com objetivo de hospedar a primeira representação diplomática da coroa da Suécia em São Paulo e de servir de residência ao cônsul, o Comendador Gustav Stahl. Ao longo dos anos, o prédio teve sua função como residência familiar de membros da aristocracia brasileira e, mais tarde, como sede das representações diplomáticas do Japão e da Espanha. Em 1980, depois da transferência de sede do corpo diplomático do Japão, a construção perdeu seu uso. Recentemente, o palacete Stahl passou por um minucioso trabalho de restauro visando a manutenção e recuperação de seu valor histórico. Com isso, o prédio passou a receber diversas exposições e atividades culturais.
Até março, acontece a exposição Terzo Paradiso, do artista italiano Michelangelo Pistoletto. Celebrando 90 anos de vida, ele é um dos principais expoentes da arte povera, movimento artístico que consiste na reutilização de materiais tidos como inúteis, como a sucata, para a formação de esculturas e obras de arte.
Onde: Rua Piauí, 874 – Higienópolis | a 11 minutos a pé da Estação Higienópolis-Mackenzie
Quando: terça a domingo, das 9h às 18h
Quanto: Entrada gratuita
Mais informações: contato@institutoartium.org.br ou (11) 3660-0130
Exposição Ensaios para o Museu das Origens
Estações Faria Lima e Brigadeiro
Foto: Letícia Vieira
Até o dia 28 de janeiro, é possível visitar Ensaios para o Museu das Origens que acontece no Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, e também no Itaú Cultural, na Avenida Paulista. A exposição é inspirada na proposta de Mario Pedrosa para a reconstrução do MAM-Rio depois de atingido por um incêndio em 1978. Para o crítico, além do restauro, devia se repensar o seu papel reunindo, ali, os museus de Arte Moderna; do Índio e do Inconsciente, que já existiam, e os museus do Negro e das Artes Populares, a serem criados. Sua ideia, que nunca se concretizou, agora deu vida à mostra que está em cartaz em cinco salas das duas instituições e reúne mais de mil itens, entre pinturas, esculturas, documentos, fotografias e vídeos, entre outros. O objetivo é apresentar um percurso pela história do Brasil, tomando a arte e a cultura como alicerces e passando pela memória de múltiplas ancestralidades. Para chegar ao Tomie Ohtake, é possível andar por cerca de 9 minutos partindo da estação Faria Lima. Já para chegar ao Itaú Cultural, é preciso fazer a transferência da linha amarela para Consolação, na linha verde, e descer na Estação Brigadeiro.
Instituto Tomie Ohtake
Onde: – Rua Coropé, 88, Pinheiros | 9 minutos a pé da Estação Faria Lima
Itaú Cultural
Onde: Avenida Paulista, 149, Bela Vista | 4 Minutos a pé da Estação Brigadeiro
Quando: terça a sábado, das 11h às 20h | Domingos feriados, das 11h às 19h
Quanto: Entrada gratuita
Mais informações: Pelo telefone (11)2168-1777 Whatsapp: (11)96383-1663 E-mail: atendimento@itaucultural.org.br
Lucas Lassen comanda loja de arte com quatro endereços na cidade Por Humberto Abdo 5 jan 2024, 06h00
Lucas Lassen, diretor da Paiol (Salvador Cordaro/Divulgação)
Criador da loja de arte Paiol, o empresário Lucas Lassen, 45, comanda na Fradique Coutinho a abertura da sua quarta unidade paulistana. Após seis meses de reforma, o endereço em Pinheiros comporta uma seleção de itens artesanais fabricados e garimpados em diferentes estados brasileiros — empreitada que começou com a venda de tapetes em feiras e bancas.
“Direto de Taubaté para estudar na capital, descobri tapetes de Minas Gerais em uma época em que produtos feitos a mão estavam crescendo”, conta. “Lembro que comecei a vender com 2 000 reais de estoque e esgotei tudo no primeiro dia.”
Envolvido em produções culturais e trabalhos com nomes como o diretor Antunes Filho, em 2019 ele passou a dedicar todo o tempo às vendas de peças feitas a mão e investir em pontos fixos. Hoje mantém espaços na Pompeia, na Paulista e na Galeria Metrópole, na República.
“Nunca quis montar uma galeria, e sim dar acesso a essas criações com técnicas que são passadas por várias gerações.”
Publicado em VEJA São Paulo de 5 de janeiro de 2024, edição nº 2874
Conheça a história e as técnicas usadas por três artesãs de diferentes regiões do Brasil
Por Redação Casa e Jardim
Variados estilos de artesanato, passando por argila, palha de milho e arte naïf, revelam as interpretações de três artesãs para o tradicional presépio de Natal. Na imagem, trabalho da artesã Fatinha — Foto: Alexandre Disaro / Divulgação
O presépio é uma forma de celebrar o nascimento de Jesus Cristo na época de Natal e faz parte do imaginário popular e de criações artísticas e artesanais de diferentes regiões do Brasil – país que tem sua fundação fortemente ligada às tradições católicas e ainda mantém mais de 70% da população adepta ao cristianismo.
Através de diferentes técnicas, artesãos de todo o país fazem suas interpretações dos presépios, que remetem à relação cristã com a data. Mas nem sempre foi assim. Embora haja consenso entre historiadores de que a celebração nesta data, antes de Cristo, estava associada ao solstício de inverno para o Império Romano, só muitos séculos depois é que ela passou a integrar o calendário cristão com este significado.
O presépio é a representação de uma cena clássica carregada de simbologias e reproduzida há vários séculos por artistas com técnicas e estilos distintos. O que não pode faltar é a união dos três personagens principais, Jesus, Maria e José, que, eventualmente, estão cercados por ovelhas e outros elementos cênicos.
“Na arte popular, temos algumas artistas que passam por referências remetendo à arte naïf e às figurativas, sempre buscando trazer esta cena que está intimamente ligada à compreensão ocidental do que é o Natal”, explica Lucas Lassen, curador e diretor criativo da Paiol, loja especializada em artesanato de tradição e arte popular brasileira.
Para conhecer um recorte da interpretação artística dessa tradição, listamos o trabalho de três artesãs de diferentes regiões do Brasil. Confira abaixo!
Angela Sampaio – Taubaté, São Paulo
Angela Sampaio, do grupo Figureiros de Taubaté, de São Paulo, cujas criações remetem à arte naïf — Foto: Divulgação
Nascida em Taubaté, no interior de São Paulo, Angela Sampaio pertence à terceira geração da família no artesanato. Sua relação com o barro, portanto, começou na primeira infância: quando tinha por volta dos 8 anos, na década de 1960, começou a usar a argila despretensiosamente para reproduzir tudo o que via.
“Para ter com o que brincar, eu comecei a criar cachorros sentados, deitados, em pé ou se espreguiçando. Depois, passei a reproduzir as pessoas, as casas e tudo aquilo que me chamava a atenção”, conta a artesã, que, junto da mãe e dos irmãos, costumava buscar a argila às margens do rio Itaim, que corta a região do Vale do Paraíba.
Após várias décadas usando o barro para recriar cenas do cotidiano, o ofício se tornou a sua principal fonte de renda. Em seu atual portfólio, os animais continuam presentes, mas foram incluídos, sobretudo, personagens de festas populares, santos e outros símbolos religiosos.
Presépio “Chuva de Pássaros”, de Angela Sampaio, sintetiza seu portfólio formado por animais, personagens de festas populares, santos e outros símbolos religiosos — Foto: Divulgação
Suas obras remetem à arte naïf, termo francês que significa o trabalho autodidata retratando a verdade, a natureza sem artifício ou esforço, como no caso de Angela, inspirada pelos reflexos de seus sentimentos e espontaneidade.
Pertence ao grupo Figureiros de Taubaté, que, atualmente, reúne pouco mais de 20 artesãos, sua história com a confecção dos presépios também começou com sua avó, que costumava criar peças sob encomenda para religiosos e até igrejas da região. “Eu gosto mesmo é de fazer as peças pequenas. Quanto menor a obra, mais eu me encanto”, revela.
Fatinha de Olhos D’água – Alexânia, Goiás
Fatinha de Olhos D’água, de Alexânia, Goiás, usa palha de milho em suas obras — Foto: Divulgação
A história com o artesanato da mestra artesã Maria de Fátima Bastos, popularmente conhecida como Fatinha, começou ainda criança. Neta e filha de artesãs, ela cresceu vendo as duas tecendo manualmente colchas de algodão e produzindo bonecas de pano.
Por volta 7 anos, para driblar a infância humilde com criatividade, ela passou a usar a palha de milho das plantações dos arredores de Olhos D’água, vilarejo de Alexânia, no interior de Goiás, para produzir bonecas.
A profissionalização veio em 1999, após participar de uma rodada de negócios. Foram tantos os pedidos, que percebeu necessitar de ajuda. “Com isso, eu passei a ensinar vizinhos, amigos e alguns jovens da cidade”, lembra.
Tradicional presépio de Fatinha de Olhos D’água, com amarrações de palha de milho — Foto: Divulgação
Católica, algumas de suas peças que mais se destacam estão ligadas às manifestações culturais e símbolos do catolicismo. Seus tradicionais presépios, feitos a partir de amarrações da palha, são reconhecidos em todo país e fora dele. Inclusive suas santas de palha foram oferecidas como um presente do Brasil ao Papa Francisco em uma de suas visitas ao país.
Edneide Vitalino Neta – Caruaru, Pernambuco
A artesã Edneide Vitalino Neta, de Caruaru, Pernambuco, que trabalha com o barro — Foto: Divulgação
Edneide Vitalino faz parte de uma das famílias mais tradicionais da arte popular pernambucana. Neta do Mestre Vitalino, principal expoente da arte figurativa brasileira, ela começou no artesanato aos 8 anos. Desde então, não parou mais, e já são 47 anos de vida trabalhando com o barro.
A inspiração da artesã, terceira geração da família, vem do cotidiano do agreste e das vivências nordestinas. “A influência do meu avô no trabalho dos artesãos da região é muito forte, então, o que eu faço tem a mesma linguagem das peças deles. A vida no campo, os bois, as festas populares, os músicos do forró, tudo me serve de inspiração. Mas os presépios, eu aprendi com a minha mãe, que sempre esteve ligada às figuras religiosas”, conta.
Presépio de Edneide Vitalino retrata sua inspiração, que vem do cotidiano do agreste e das vivências nordestinas — Foto: Divulgação
Ao lado de seus outros 12 irmãos – todos envolvidos com a arte popular – ela tem contribuído para manter viva a tradição que transformou a região de Caruaru no maior centro de arte figurativa das Américas, reconhecida internacionalmente por figuras como o Boi, o Cangaceiro e as peças que retratam famílias retirantes.
A mostra com imagens do fotógrafo Salvador Cordaro retrata rostos da arte popular e do artesanato brasileiro
Por Rafaela Freitas
Matéria realizada e postada no site https://revistacasaejardim.globo.com/artesanato/noticia/2023/11/mostra-fotografica-enaltece-o-trabalho-de-renomados-artesoes-brasileiros.ghtml
Mostra fotográfica em Pinheiros, São Paulo, retrata rostos de artesãos brasileiros por trás das peças já conhecidas. Na foto, o artista Jasson, de Alagoas — Foto: Salvador Cordaro / Divulgação
Determinado a manter viva a memória do artesanato brasileiro, Salvador Cordaro leva ao bairro de Pinheiros, em São Paulo, uma mostra com nove retratos de nomes ilustres do cenário artístico regional. O evento é organizado pela Paiol, marca dedicada à promoção da arte popular e do artesanato, e sediado durante a reabertura da loja.
Inaugurada em 11 de novembro, a mostra Pelos Olhos da Gente é composta por fotografias em preto e branco, retratando os artesãos e suas obras em contraceno a uma lona e um assoalho de madeira.
“Tenho fotografado artistas de diversas vertentes há alguns anos, e o que mais me interessa neste processo é a possibilidade de ajudar a registrar parte da história do nosso país, criando imagens que farão parte da nossa memória coletiva”, diz Salvador.
Tiago Amorim, artesão de Pernambuco, é conhecido pelas artes em cerâmica — Foto: Salvador Cordaro / Divulgação
Sil da Capela, artesã alagoana que transforma barro em obras de arte — Foto: Salvador Cordaro / Divulgação
Já para Lucas Lassen, diretor criativo e curador da Paiol, a iniciativa aproxima o visitante dos artesãos q4es estão por trás de peças que já fazem parte do nosso imaginário. “É muito comum que as pessoas identifiquem as obras de grandes mestres como Sil, Jasson e Aberaldo, muitas vezes, antes de conhecer os rostos e as mãos por trás daquela criação. Por isso, registrar e mostrar o artesão também é uma forma de conectá-los com aqueles que admiram seus trabalhos”, afirma Lucas.
A loja da Paiol, localizada na Rua Fradique Coutinho, lançou com a exposição o oferecimento de experiências imersivas para além das peças artesanais já conhecidas pelos visitantes. Em adição, o espaço recebe uma nova aparência, com a missão de promover um mergulho pelo universo da arte popular, dando atenção, sobretudo, à arte indígena e ao movimento armorial – conhecido por prestigiar o fazer popular nordestino.
Loja da Paiol, em Pinheiros, tem pinturas do artista Waxamani Mehinaku, com pinturas artísticas ligadas à sua etnia do Alto Xingu, no Mato Grosso. Em outros espaços, a artista paulistana, Carol Shimeji, atualiza e reinterpreta símbolos do Movimento Armorial — Foto: Salvador Cordaro / Divulgação