Live Painting e bate-papo ressaltam a força da produção feminina
Matéria publicada pelo site https://gazetadasemana.com.br/noticia/125168/eventos-na-casacor-trazem-intervencao-artistica-e-roda-de-conversa-sobre-o-papel-feminino-no-setor
Divulgação
Em cartaz em São Paulo até o começo de agosto, a CASACOR acontece no Conjunto Nacional, no centro da cidade. No dia 26 de julho, próxima quarta-feira, algumas atividades estão previstas, trazendo uma intervenção artística e discussões sobre design, decoração, arte, responsabilidade social e o papel das mulheres em todas estas áreas.
Bate-papo | Mulheres no Design, Arte, Artesanato e sua Responsabilidade Social
Buffet Abrigo, peça de Maria Fernanda no Ku’Ya, espaço de Stefanie Ribeiro que também reúne peças de Emediato e Suguikawa
Às 16h, em um bate-papo no Caracol Bar, espaço da Viganó Arquitetura, Stefanie Ribeiro, Maria Fernanda Paes de Barros, Maria Helena Emediato e Karol Suguikawa discutem a participação da mulher nos campos do design, da arte e do artesanato. Com projetos que mesclam expressão criativa, sustentabilidade e responsabilidade social, seus trabalhos têm contribuído para questionar a hegemonia patriarcal no setor.
Na conversa, elas devem discutir projetos colaborativos que visam o desenvolvimento comunitário, o uso do design como instrumento de transformação social, a arte e o design como ferramenta de inclusão de mulheres pretas, indígenas, quilombolas, rurais, LGBTQIA+, além de trazerem exemplos de parcerias com responsabilidade social.
“É uma oportunidade de ouvir mulheres de diferentes idades, etnias e experiências distintas, mas que têm usado seus potenciais criativos para criar projetos de impacto”, afirma Maria Fernanda.
Live Painting com a artista Ju Amora | Espaço Refúgio Conexão
Cores e Mãos do Cerrado fazem parte do Espaço Refúgio Conexão, de Isabella Nalon, que ressalta o feito à mão
No mesmo dia, das 14h às 19h, o espaço Refúgio Conexão, da arquiteta Isabella Nalon, recebe uma ação de live painting com a artista Ju Amora, que ficou nacionalmente conhecida por suas pinturas artísticas em bancos de madeira.
Sua primeira participação na CASACOR se dá por conta da coleção Cores e Mãos do Cerrado, que traz vasos artesanais de cerâmica produzidos por artesãos do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. “A pesquisa envolveu um estudo das diversas cores e referências culturais encontradas no bioma cerrado, o que nos permitiu chegar a uma paleta e a desenhos que ressaltam as características físicas e ambientais da região”, revela.
Idealizada por Lucas Lassen, diretor criativo da Paiol, loja de arte popular e artesanato de tradição, a coleção é resultado de uma integração de saberes e fazeres artísticos, tendo como objetivo estimular a criação e a versatilidade de técnicas ancestrais produzidas na região.
A ação é uma iniciativa de Isabella Nalon, Paiol, Casa Bonita e CASACOR. Ao final, os vasos serão doados a uma instituição escolhida pela equipe da CASACOR.
SERVIÇO
Live Painting – CASACOR 26 de julho de 2023 | Quarta-feira Onde: Espaço 40 | Isabella Nalon Arquitetura e Interiores | Das 14h às 19h Caracol Bar | às 15h Conjunto Nacional | Avenida Paulista. 2073 – São Paulo, SP
O setor de Serviços foi responsável por mais da metade das vagas abertas no período, segundo o Sebrae
Por Da Redação
Matéria realizada pelo Jornal da Band, em 19/07/2023
Os pequenos negócios continuam na posição de protagonistas em relação aos empregos gerados no país. Levantamento realizado pelo Sebrae, com base nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), revela que 76% dos postos de trabalho criados em abril foram desse segmento. Do total de 180 mil novas vagas, 136,3 mil estavam nas micro e pequenas empresas contra 33,8 mil nas de médio e pequeno porte. A Administração Pública foi responsável por 4,6 mil.
“Mais uma vez, o segmento mostra a sua importância para a redução do desemprego e fome no país. Após o impulsionamento de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano, a expectativa é que o resultado seja ainda melhor nos próximos meses e que um número maior de novos postos seja criado”, comenta o presidente do Sebrae, Décio Lima.
Os pequenos negócios de todos os setores analisados apresentaram saldo positivo. O setor de Serviços foi a principal força motora de empregos do país, apresentando um total de 69,4 mil novas vagas, ou seja, seis a cada dez novos postos surgiram nesse setor. A Construção ficou na segunda posição, com 25,1 mil; seguida pelo Comércio, com 24,5 mil empregos; Indústria da Transformação, com 11,3 mil; Agropecuária, com 4,2 mil; Extrativa Mineral, com 886; e Serviços industriais de utilidade pública (SIUP), com 794.
Acumulado
Entre janeiro e abril de 2023, foram geradas 705,7 mil novas oportunidades no Brasil, sendo que 540,5 mil foram de responsabilidade aas micro e pequenas empresas, o que representa 76% desse saldo. Já as médias e grandes empresas fomentaram 83,2 mil novos postos de trabalho, o equivalente a 11,7% do total de vagas criadas no período. “Os pequenos negócios continuam mantendo a regularidade na participação do volume de novos empregos nos últimos anos. Em fevereiro, o segmento chegou a representar 85% das vagas”, observa Décio Lima.
No acumulado do primeiro quadrimestre, os pequenos negócios do setor de Serviços geraram 312,3 mil vagas, seguidos por Construção, com 110,8 mil, e Indústria da Transformação, com 94,3 mil. Embora o Comércio tenha apresentado saldo positivo nos últimos dois meses, o setor ainda está com saldo negativo de 15,6 mil no acumulado do ano. Esse resultado pode ser atribuído, em grande parte, ao mês de janeiro que, tradicionalmente, tem um número grande de demissões por causa das contratações que são feitas apenas para as festas de fim de ano.
Os projetos valorizam as raízes artesanais brasileiras e carregam histórias, técnicas e características do feito à mão de distintas regiões do país
Matéria realizada e publicada por Redação em https://casacor.abril.com.br/arte/feito-a-mao-destaque-casacor-sp-2023/
Gabriel Ramires, José Carrari Filho e Stephanie Ribeiro – KU’YA. Projeto da CASACOR São Paulo 2023. (André Scarpa/CASACOR)
Em sua 36ª edição, a CASACOR São Paulo segue o tema “Corpo & Morada“, trazendo reflexões acerca do corpo e suas relações com o espaço físico. Neste sentido, alguns projetos trazem um olhar apurado para as manualidades, sobretudo por trabalhos que valorizam as raízes artesanais brasileiras e que carregam consigo as histórias, técnicas e características do feito à mão espalhadas por regiões distintas do país.
No espaço Ku’Ya, que pode ser definido como um loft-spa criado pelos arquitetos Stephanie Ribeiro, Gabriel Ramires e José Carrari Filho, a ancestralidade e contemporaneidade brasileira se misturam no Buffet Abrigo, obra da designer e artista Maria Fernanda Paes de Barros em parceria com artesãs indígenas da etnia Mehinaku, do Alto Xingu. “No nosso espaço, esta obra entra como um dos elementos centrais, não só pela sua estética original e atípica, mas também por ser resultado de uma conexão genuína que reposiciona o saber artesanal de uma comunidade indígena tradicional dentro do mercado contemporâneo”, revela Stephanie.
Gabriel Ramires, José Carrari Filho e Stephanie Ribeiro – KU’YA. Projeto da CASACOR São Paulo 2023. (André Scarpa/CASACOR)
Produzida em uma edição limitada de apenas oito peças, a obra foi concebida a partir de uma profunda escuta e da união horizontal de saberes, com o objetivo de transmitir uma mensagem de respeito, equidade e harmonia. Feito em Cabreúva com fios de algodão tingidos naturalmente, a peça utiliza cilindros de madeira maciça que remetem à uma técnica tradicional Mehinaku na produção de esteiras, trazendo valorização e visibilidade para o trabalho das mulheres da etnia. “Penso na decoração como um instrumento que nos permite olhar para dentro, para o que é produzido aqui e para a riqueza das tradições que permeiam o nosso país. Neste contexto, esta é uma obra que levanta questões importantes sobre a sustentabilidade do fazer artesanal e o potencial de impacto social do design”, completa Carrari.
Isabella Nalon Arquitetura e Interiores – Refúgio Conexão. Projeto da CASACOR São Paulo 2023. (Rafael Renzo/CASACOR)
Outro espaço que se debruça sobre as manualidades é o Refúgio Conexão, criado pela arquiteta Isabella Nalon, que marca sua estreia na CASACOR. Inspirada no conceito de Slow Living, o ambiente de estar de 76m² propõe a busca por um olhar mais atencioso para consigo e com a forma como se lida com o próprio ritmo. “Acredito que é primordial pensar a casa como uma extensão de nós mesmos. Nosso olhar se volta para compreender como os ambientes podem contribuir para a nossa saúde física e mental e, dessa maneira, cada espaço deve refletir aquilo que mais funciona para cada um. Pensando em reduzir o ritmo, o artesanato brasileiro, em certa medida, nos traz a ideia de respeito ao tempo das coisas, do contato com o orgânico e nos desafia a valorizar as pequenas imperfeições que trazem singularidade às peças”, afirma a arquiteta.
Isabella Nalon Arquitetura e Interiores – Refúgio Conexão. Projeto da CASACOR São Paulo 2023. (Rafael Renzo/CASACOR)
Dentre as diversas obras artesanais que se destacam no Refúgio Conexão, há a coleção de vasos Cores e Mãos do Cerrado, uma parceria da Paiol, uma das principais lojas de arte popular e de artesanato de tradição do Brasil, em parceria com a artista paulistana Ju Amora, que fez pinturas inspiradas na estética do bioma. Idealizada por Lucas Lassen, a coleção de vasos é moldada a partir do barro por artesãs do Vale do Jequitinhonha, tradicional reduto de ceramistas em Minas Gerais. Para a intervenção nas peças, a pesquisa envolveu um estudo das diversas cores e referências culturais do cerrado, o que lhes permitiu chegar a uma paleta e a desenhos que ressaltam as características físicas e ambientais da região, propondo uma união linear de diferentes vivências e características artísticas.
Isabella Nalon Arquitetura e Interiores – Refúgio Conexão. Projeto da CASACOR São Paulo 2023. (Rafael Renzo/CASACOR)
“Trazer o artesanal para os ambientes evoca a necessidade de olharmos para a decoração como uma ferramenta de valorização da brasilidade, de reconhecermos que uma das riquezas do Brasil está na criatividade, nas produções coletivas, na transmissão geracional e na manutenção desses saberes que formam a identidade do país”, finaliza Isabella.
Para além dos objetos
Mauro Contesini – Circulação 41. Projeto da CASACOR São Paulo 2023. (Adriana Barbosa/CASACOR)
Nesta edição, além dos objetos, as técnicas de pintura também se destacam no diálogo entre a decoração e a arte popular. Em de 30m², o paisagista e engenheiro agrônomo Mauro Contesini – veterano de CASACOR – celebra a arte autêntica do nordeste, a simplicidade e resistência de seus artesãos. O recifense Derlon, reconhecido por uma estética que remete ao universo das Xilogravuras, foi um dos escolhidos para compor algumas obras nas paredes. Além de Derlon, o espaço conta com obras das ceramistas Dheny Santos e Leslie Bassi Gaffuri.
Ester Carro – Espaço Motirõ. Projeto da CASACOR São Paulo 2023. (André Mortatti/CASACOR)
Outro projeto que destaca a pintura artística é o Motirõ, pensado pela arquiteta e urbanista social Ester Carro. Segundo ela, o ambiente de 34m² é um espaço de ativismo, sensibilização para o morar periférico e potência de habilidades ancestrais. Para tanto, ela convidou o jovem artista indigena Waxamani Mehinaku, que utiliza seu trabalho com grafismos autorais de sua etnia e o transporta para mobiliários desenhados pela designer Claudia Moreira Salles. “A intervenção foi criada pensando no futuro, no cuidado e nas adaptações que o habitar contemporâneo necessita. É um espaço coletivo que conecta mãos para construir”, finaliza Ester.
Serviço CASACOR São Paulo 2023
Onde: Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, 2073.
Valores totais dos ingressos: De terça a domingo e feriados – R$101,00 (inteira) e R$ 51,00 (meia entrada)
Pacotes promocionais:
3 dias (desconto de 17%) – R$251 (inteira) e R$ 126,00 (meia entrada)
5 dias (desconto de 30%) – R$ 351,00 (inteira) e R$ 176,00 (meia entrada)
*Ingressos pessoais e intransferíveis.
Passaporte (livre acesso em todos os dias de funcionamento da mostra):
R$601,00 – código de promoção pré-venda não aplicável nesta modalidade
*Ingressos pessoais e intransferíveis.
Visitas Guiadas:
R$161,00 (terças, quartas e quintas-feiras às 17h)
Compra de ingresso de meia-entrada
Idoso a partir de 60 anos Estudante apresentando o documento válido com foto ou recibo de pagamento. Deficiente e seu acompanhante (conforme lei 12.933/13). *Promoção de pré-venda não válida para meia entrada *Comprovação de meia-entrada será exigida na porta. Importante: A compra do passaporte oferece acesso livre à mostra
Gratuidade de entrada é para crianças com idade comprovada de até 10 anos.
1 (um) CPF pode comprar no máximo 10 ingressos. Venda para Grupos, dúvidas e informações: Compras acima de 10 ingressos ou por CNPJ, envie e-mail para: bilheteriacasacor@abril.com.br ou whatsapp (11) 97717-5511
Informações Gerais:
O evento CASACOR está em concordância com as normas sanitárias vigentes. Todos os protocolos de segurança e higiene deverão ser cumpridos por todos os visitantes e staff, sem exceção.
Fácil acesso à mostra via metrô Consolação – Linha 2, verde.
Não é autorizado o uso de equipamentos profissionais como, tripé, luz e acessórios para captação de imagem/foto/vídeo durante a visita.
O trabalho conjunto une as famílias e ajuda a alavancar os pequenos negócios de artesanato e arte popular por todo o Brasil
Por Ana Sachs
Yran Palmeira e Emeton Kroll com os ‘Pedidores de Abraços’, da Armoriarte – Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação
No mundo do artesanato, é comum encontrar casais que trabalham lado a lado na criação das peças do pequeno negócio familiar. A união acaba fortalecida e, muitas vezes, a atividade artística se estende a outros membros do núcleo, como filhos e netos.
“Eu percebo que, geralmente, um dos dois começa a produção, até que em dado momento, o número de pedidos começa a aumentar e o outro se sente incentivado a auxiliar”, conta Lucas Lassen, curador e diretor criativo da Paiol, lojas de artesanato de tradição e arte popular brasileira.
Conheça abaixo quatro casais unidos pelo amor e pela arte:
1. Yran e Emeton
Juntos há quase 20 anos, Yran Palmeira e Emeton Kroll moram em Caruaru (PE) desde 2008. Eles começaram as criações artísticas em 2015, por influência de um grande amigo, que acabou falecendo logo depois. Para lidar com o luto, usaram a pintura e a cerâmica como terapia.
A “Pedidora de Abraços” de Yran Palmeira e Emeton Kroll é moldada e pintada à mão — Foto: Theo Grahl / Divulgação
Juntos, eles criaram a Armoriarte, marca artística inspirada no movimento armorial, de Ariano Suassuna, que busca criar uma arte autêntica brasileira baseada nas raízes populares. Eles também trabalham com referências do pernambucano Francisco Brennand.
Os bonecos de braços abertos, criados por Emeton e batizados de “Pedidores de Abraços” por Yran, se tornaram o carro-chefe. Hoje, para adquirir uma das peças moldada e pintada à mão pelos dois é preciso esperar até 90 dias. “Acho que não eu conseguiria trabalhar por tanto tempo e com tanto prazer se não fosse ao lado de quem eu amo e de quem me ama também”, fala Yran.
2. Mestre Neguinha e Nanai
Maria do Carmo, mais conhecida como Mestre Neguinha, está com o marido, Arnaldo Guimarães, o Nanai, desde 1994. Mas foi somente há cerca de quatro anos que ele precisou pedir demissão do trabalho para auxiliar a esposa na produção de suas peças, que não para de crescer.
O casal Mestre Neguinha e Nanai trabalha junto há cerca de quatro anos — Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação
O salto se deu após conhecerem a artista plástica Ana Veloso, durante um projeto com foco em revitalizar a produção artesanal de Belo Jardim, no agreste pernambucano, onde o casal vive.
Criações com tamanduás, sereias e santos começaram a fazer sucesso, até que as famosas cabeças de barro – hoje reconhecidas no mundo todo – se transformaram em uma marca registrada.
As cabeças de barro viraram marca registrada do trabalho de Mestre Neguinha no mundo — Foto: Theo Grahl / Divulgação
“Tudo o que a gente tem hoje é fruto do artesanato e, desde então, não tivemos sequer um dia ruim. Pelo contrário, a gente sempre se deu muito bem, mas agora estamos cada mais próximos”, conta Nanai.
3. Marcos e Jaqueline
Filha, neta e bisneta de artesãs, Jaqueline Dias de Souza segue a tradição da família, que há cinco gerações trabalha com o barro no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. O marido, Marcos Lopes, começou a se interessar pela técnica em 2011. As visitas à casa da sogra, durante o namoro de quatro anos, o fizeram se encantar por todo o processo de produção das peças.
Jaqueline Dias de Souza e Marcos Lopes, que aprendeu a trabalhar o barro com a esposa — Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação
“Eu comecei aos pouquinhos, por incentivo da Jaqueline e da minha sogra, e logo já estava conciliando a produção com a função de operador de máquinas em construções”, afirma.
As peças de barro criadas por Jaqueline e Marcos junto com a família da artesã — Foto: Alexandre Disaro / Divulgação
Com o casamento em 2015 e, mais tarde, o nascimento da filha do casal, ele sentiu a necessidade de estar mais perto de casa. Com isso, o artesanato passou a ser o seu ofício principal. “O artesanato, hoje, para nós, além de representar qualidade de vida, acaba fortalecendo o nosso laço familiar”, diz o casal.
4. Adriana e Juliano
Adriana Souza e Juliano Martins se conheceram na escola quando os dois, já adultos, decidiram voltar a estudar. Ela trabalhava com artesanato desde os 19 anos e o convidou para atuar na profissão, pois ele havia acabado de perder o emprego à época.
Adriana Souza e Juliano Martins trabalham juntos na produção de esculturas de arte naif — Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação
“Eu não tinha muita noção do que ela fazia. Acabei indo conhecer e aprendi todo o processo de trabalho com a madeira, material que demanda um certo domínio para saber como cortar e entalhar”, relembra Juliano.
As esculturas de madeira de Adriana e Juliano são feitas de madeira talhada e pintadas à mão — Foto: Theo Grahl / Divulgação
Dezoito anos depois e com três filhos, o casal, que vive em Caraguatatuba, no litoral paulista, construiu a marca Casa das Casinhas, que produz esculturas de arte naif em madeira talhada por ele e finalizada com pinturas feitas por ela.
“A gente gosta de representar o cotidiano, o recorrente, mas sempre de uma forma mais leve, colorida e animada. É um estilo de vida, é um trabalho árduo, mas também é diversão e tem nos dado muita qualidade de vida”, comenta Adriana.
Arquitetos ressaltam técnicas artesanais em diversos ambientes
Matéria realizada e publicada por Angelo Miguel em https://megamoveleiros.com.br/publicacoes/feito-a-mao-ganha-destaque-em-projetos-da-casacor
Feito à mão ganha destaque em projetos da CASACOR
Desde o dia 30 de maio, está aberta a nova temporada da CASACOR, maior evento de arquitetura e decoração das Américas, que mistura arte, design e paisagismo em 73 ambientes pensados pelos principais nomes da decoração nacional. Em sua 36ª edição, os projetos se inspiram no tema Corpo & Morada, trazendo reflexões acerca do corpo e suas relações com o espaço físico. Neste sentido, alguns projetos trazem um olhar apurado para as manualidades, sobretudo por trabalhos que valorizam as raízes artesanais brasileiras e que carregam consigo as histórias, técnicas e características do feito à mão espalhadas por regiões distintas do país.
No espaço Ku’Ya, que pode ser definido como um loft-spa criado pelos arquitetos Stephanie Ribeiro, Gabriel Ramires e José Carrari Filho, a ancestralidade e contemporaneidade brasileira se misturam no Buffet Abrigo, obra da designer e artista Maria Fernanda Paes de Barros em parceria com artesãs indígenas da etnia Mehinaku, do Alto Xingu. “No nosso espaço, esta obra entra como um dos elementos centrais, não só pela sua estética original e atípica, mas também por ser resultado de uma conexão genuína que reposiciona o saber artesanal de uma comunidade indígena tradicional dentro do mercado contemporâneo”, revela Stephanie.
Produzida em uma edição limitada de apenas 8 peças, a obra foi concebida a partir de uma profunda escuta e da união horizontal de saberes, com o objetivo de transmitir uma mensagem de respeito, equidade e harmonia. Feito em cabreúva e com fios de algodão tingidos naturalmente, a peça utiliza cilindros de madeira maciça que remetem à uma técnica tradicional Mehinaku na produção de esteiras, trazendo valorização e visibilidade para o trabalho das mulheres da etnia. “Penso na decoração como um instrumento que nos permite olhar para dentro, para o que é produzido aqui e para a riqueza das tradições que permeiam o nosso país. Neste contexto, esta é uma obra que levanta questões importantes sobre a sustentabilidade do fazer artesanal e o potencial de impacto social do design”, completa Carrari.
Outro espaço que se debruça sobre as manualidades é o Refúgio Conexão, criado pela arquiteta Isabella Nalon, que marca sua estreia na CASACOR. Inspirada no conceito de Slow Living, o ambiente de estar de 76m² propõe a busca por um olhar mais atencioso para consigo e com a forma como se lida com o próprio ritmo. “Acredito que é primordial pensar a casa como uma extensão de nós mesmos. Nosso olhar se volta para compreender como os ambientes podem contribuir para a nossa saúde física e mental e, dessa maneira, cada espaço deve refletir aquilo que mais funciona para cada um. Pensando em reduzir o ritmo, o artesanato brasileiro, em certa medida, nos traz a ideia de respeito ao tempo das coisas, do contato com o orgânico e nos desafia a valorizar as pequenas imperfeições que trazem singularidade às peças”, afirma a arquiteta.
Dentre as diversas obras artesanais que se destacam no Refúgio Conexão, há a coleção de vasos Cores e Mãos do Cerrado, uma parceria da Paiol, uma das principais lojas de arte popular e de artesanato de tradição do Brasil, em parceria com a artista paulistana Ju Amora, que fez pinturas inspiradas na estética do bioma. Idealizada por Lucas Lassen, a coleção de vasos é moldada a partir do barro por artesãs do Vale do Jequitinhonha, tradicional reduto de ceramistas em Minas Gerais. Para a intervenção nas peças, a pesquisa envolveu um estudo das diversas cores e referências culturais do cerrado, o que lhes permitiu chegar a uma paleta e a desenhos que ressaltam as características físicas e ambientais da região, propondo uma união linear de diferentes vivências e características artísticas.
Estante do espaço Refúgio Conexão com vasos da Coleção Cores e Mãos do Cerrado, feita por mulheres do Jequitinhonha – Foto Rafael Renzo
“Trazer o artesanal para os ambientes evoca a necessidade de olharmos para a decoração como uma ferramenta de valorização da brasilidade, de reconhecermos que uma das riquezas do Brasil está na criatividade, nas produções coletivas, na transmissão geracional e na manutenção desses saberes que formam a identidade do país”, finaliza Isabella.
Para além dos objetos
Obra de Derlon, no espaço de Mauro Contesini, e grafismos de Waxamani Mehinaku, no Espaço Motirõ, de Ester Carro – Fotos Angelo Miguel (esq) e André Mortatti/CASACOR
Nesta edição, além dos objetos, as técnicas de pintura também se destacam no diálogo entre a decoração e a arte popular. Em de 30m², o paisagista e engenheiro agrônomo Mauro Contesini – veterano de CASACOR – celebra a arte autêntica do nordeste, a simplicidade e resistência de seus artesãos. O recifense Derlon, reconhecido por uma estética que remete ao universo das Xilogravuras, foi um dos escolhidos para compor algumas obras nas paredes. Além de Derlon, o espaço conta com obras das ceramistas Dheny Santos e Leslie Bassi Gaffuri.
Outro projeto que destaca a pintura artística é o Motirõ, pensado pela arquiteta e urbanista social Ester Carro. Segundo ela, o ambiente de 34m² é um espaço de ativismo, sensibilização para o morar periférico e potência de habilidades ancestrais. Para tanto, ela convidou o jovem artista indigena Waxamani Mehinaku, que utiliza seu trabalho com grafismos autorais de sua etnia e o transporta para mobiliários desenhados pela designer Claudia Moreira Salles. “A intervenção foi criada pensando no futuro, no cuidado e nas adaptações que o habitar contemporâneo necessita. É um espaço coletivo que conecta mãos para construir”, finaliza Ester.
Maria Barbosa (à frente) com a filha Lucineide, que aprendeu com a mãe de 77 anos o bordado filé Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação
As mães ensinam muitos saberes aos seus filhos e, em alguns casos, até a profissão. No mundo do artesanato e da arte popular é comum encontrar quem tenha herdado o ofício da matriarca da família.
“Nós começamos pela convivência, pela observação diária e pelas brincadeiras de infância, o que mais tarde acaba nos incentivando a usar a atividade para gerar alguma renda”, conta Maria Barbosa, que aprendeu a bordar com a mãe e, após ensinar as próprias filhas, atualmente, incentiva as netas.
Obras de aço carbono da artesã Patricia Barros, que conta com ajuda dos filhos — Foto: Alexandre Disaro / Divulgação
Mas para que todo esse rico conhecimento se perpetue, é preciso que as mulheres encontrem no artesanato a sua fonte de subsistência. “É importante que as pessoas entendam que ao comprar uma peça artesanal, elas contribuem para a manutenção de famílias e comunidades inteiras”, destaca Maria.
Segundo Lucas Lassen, diretor criativo da Paiol, loja que atua há 15 anos em parceria com artesãos brasileiros, sem o retorno financeiro, a tradição pode desaparecer. “Por mais interessante e tradicional que seja a técnica, e por mais insistente que as mães sejam, os filhos e os netos acabam deixando a atividade de lado quando percebem que não conseguem viver deste trabalho”, avalia.
Veja abaixo cinco artesãs que têm suas histórias marcadas pelo artesanato e pela maternidade!
Maria Barbosa
A artesã Maria Barbosa, natural de Maceió, em Alagoas, começou a bordar aos 7 anos, seguindo os passos da mãe. Especialista em bordado filé, considerado Patrimônio Cultural Imaterial do Estado, ela transmitiu todo o seu conhecimento para as duas filhas.
Maria Barbosa aprendeu a bordar com a mãe aos 7 anos e, hoje, ensina as netas — Foto: Grupo Produtivo Luart / Divulgação
Uma delas, Lucineide Barbosa, hoje comanda o Grupo Produtivo Luart, composto por 32 mulheres especialistas na técnica que produzem, de forma coletiva, itens como bolsas, vestuários e acessórios para a casa. Mantendo a tradição, as netas de Maria Barbosa, de 16, 12 e 10 anos, já iniciaram no ofício, ajudando a manter vivo o conhecimento transmitido por tantas gerações.
Sil da Capela
A mestra Sil da Capela cresceu em Capela, Alagoas, e fugiu de casa aos 15 anos para ter Maria Cristina, sua primeira filha, que é autista. Durante os tratamentos da menina, ela participou de uma ação na qual o mestre artesão João das Alagoas, um ícone do estado nordestino, dava aulas de cerâmica para mães de crianças com deficiência.
Sil da Capela é mãe de três filhos, dois seguiram o mesmo caminho da mestra artesã alagoana — Foto: Sedetur / Felipe Brasil / Divulgação
As esculturas com figuras de jaqueiras, árvore abundante na região onde vive, tornaram-se a sua marca registrada. Atualmente, seus outros dois filhos, Andressa e Carlos, seguem os passos da mãe. “Na minha família, não sei de nenhum artesão ou artista antes de mim, mas fico feliz que os que estão vindo depois já estão no mesmo caminho, com obras espalhadas por vários lugares”, fala.
As figuras de jaqueiras de cerâmica são a marca do trabalho da artesã Sil da Capela — Foto: Alexandre Disaro / Divulgação
Fatinha de Olhos D’água
A mestra artesã Maria de Fátima Bastos, conhecida como Fatinha, cresceu vendo a mãe e a avó tecendo colchas de algodão e fazendo bonecas de pano. Para driblar a infância humilde, por volta dos 7 anos, ela começou a usar palha de milho das plantações da região de Olhos D’água, no interior de Goiás, para produzir bonecas.
Fatinha se considera mãe de vários outros que aprenderam com ela a viver do artesanato — Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação
A profissionalização veio em 1999, quando Fatinha percebeu que precisaria de ajuda para dar conta da demanda crescente. “Com isso, eu passei a ensinar vizinhos, amigos e alguns jovens da cidade”, conta. Mãe de dois filhos, ela diz que o trabalho com o artesanato é como um “filho” que lhe permitiu ser mãe de vários outros que aprenderam com ela o trabalho manual.
A mestra artesã Maria de Fátima Bastos usa palha de milho para criar esculturas — Foto: Alexandre Disaro / Reprodução
Patrícia Barros
A artesã Patrícia Barros, que vive em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, é filha de artesãos e artistas plásticos, e circula por ateliês desde criança. Aos 15 anos decidiu seguir carreira no artesanato, somando 42 anos de dedicação exclusiva aos trabalhos manuais.
“Comecei fazendo peças que eu via em lojas de alta decoração, mas não podia comprar devido ao preço. Fazia castiçais e, quando vi, já estava produzindo várias peças decorativas e com temas religiosos”, relembra.
Patrícia envolveu os dois filhos e o marido na produção das peças artesanais de aço carbono — Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação
Frequentemente associado a pequenos produtores agrícolas, o conceito de comércio justo – que busca promover padrões produtivos e comerciais responsáveis e sustentáveis – tem ganhado força no mercado de artesanato e arte popular.
A aposta é em relações mais próximas e humanas com os artesãos, para tentar trazer dignidade ao trabalho destes pequenos empreendedores, muitas vezes explorados por comerciantes ou pouco valorizados até mesmo pelo poder público. Uma das maiores organizações do setor, a Artesol nasceu em 1998 e, desde então, trabalha com ações de fomento ao artesanato e à arte popular no país com base em uma metodologia própria de estruturação de negócios pautada pelos princípios do comércio justo.
“Idealizamos e mantemos uma rede de artesãos, artistas e associações onde o critério para se tornar membro não é o produto em si e, sim, o sistema produtivo, desde que o artesanato seja de tradição cultural”, diz Jô Masson, diretora-executiva da entidade.
Peças da coleção Raízes do Vale, criada pela Paiol em parceria com artesãos do Vale do Jequitinhonha — Foto: Alexandre Disaro / Divulgação
Desde 2006, a Artesol integra a Organização Mundial de Comércio Justo (Word Fair Trade Organization), e as peças criadas nos projetos da rede são vendidas na Artiz, loja no shopping JK Iguatemi, em São Paulo. Além do trabalho em campo, com mentorias e capacitações para os artesãos e associações de pequenos produtores, a organização também tem um canal na internet com mais de 180 aulas gratuitas.
“Um dos maiores exemplos do impacto dessas práticas é a Central Veredas, associação no noroeste de Minas Gerais com artesãs que plantam, cardam, tingem e tecem o algodão natural do cerrado brasileiro. Atualmente, após diversos treinamentos com a Artesol, a Veredas gera trabalho e renda digna para as artesãs que estão sempre inovando e dialogando com o mercado contemporâneo, mas sem perder suas raízes”, conta Jô.
Artesãs do grupo Arte e Talento, de Barreirinhas (MA), trabalham juntas na produção de peça — Foto: Theo Grahl / Divulgação
Artesanato como meio de vida
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor de artesanato movimenta R$ 50 bilhões por ano e é fonte de renda de mais de 10 milhões de pessoas. Mas ainda falta valorização e há pouco incentivo para o ofício, segundo Jô. “É importante ressaltar a necessidade de políticas públicas que priorizem este setor no espectro da economia criativa, considerando seu potencial de relevância patrimonial, mas também de desenvolvimento social e econômico”, destaca.
O trabalho dos artesãos atua na preservação da memória artística e cultural nacional. Sem incentivos, todo esse acervo pode se perder. “Para que ele [artesão] ou o artista popular continue produzindo, é necessário que consigam ter as suas necessidades básicas atendidas“, avalia Lucas Lassen, diretor criativo da Paiol, uma das maiores lojas de artesanato e arte popular da cidade de São Paulo.
Artesãs Anísia Lima fazendo peça da Coleção Raízes de Vale desenvolvida em parceria com a Paiol — Foto: Alexandre Disaro / Divulgação
Para ele, é muito importante incentivar principalmente os mais jovens a acreditarem no ofício de artesão como um meio de subsistência. Sem essa visão de futuro, muito da arte popular brasileira pode se perder ao longo do tempo. “Se o jovem artesão não for incentivado, se ele não enxergar que a atividade é sustentável do ponto de vista econômico e, infelizmente, a tradição vai deixando de existir“, avalia.
Na loja Paiol, um dos cases recentes envolve uma das regiões mais carentes do Brasil, o Vale do Jequitinhonha. “Eu me mudei para Turmalina, em Minas Gerais, durante a pandemia, e este foi um período no qual desenvolvemos diversas oficinas para a criação de novos produtos. Nelas, as artesãs mais experientes ensinaram suas principais técnicas para artesãos mais jovens. Um dos resultados deste trabalho foi a criação da coleção Raízes do Vale“, comenta o empresário.
Na avaliação de Lucas, um dos pontos mais sensíveis – o valor justo pelos produtos – exige diálogo e transparência para que a relação produtor/comerciante aconteça de forma equitativa.
“Quando cheguei em alguns locais, percebi uma certa resistência pelo fato de eles já terem sido muito explorados. Por isso, a minha postura sempre foi muito transparente no sentido de mostrar que o valor cobrado do cliente final inclui custos como frete, ações de divulgação, aluguel, salários de equipe, impostos, entre outros. Se estes custos não forem considerados, o negócio não se sustenta e acaba afetando a sustentabilidade do trabalho deles também“, explica.
Grupo de de artesãos passa por formação em projeto da Rede Artesol — Foto: Theo Grahl / Divulgação
Quem hoje entra na Galeria Metrópole se depara com um cenário um tanto diferente daquele mar de agências de turismo e lojas de câmbio que, nas últimas décadas, povoaram o prédio na região central de São Paulo. É cada vez mais comum o vaivém de uma turma mais moderninha vagando por ali, entre cafés e livrarias, abrindo restaurantes veganos, galerias de arte e casas voltadas ao artesanato brasileiro.
Ícone da arquitetura modernista, o edifício histórico projetado entre os anos 1950 e 1960 por Gian Carlo Gasperini e Salvador Candia já foi, em seus primórdios, um reduto da elite paulistana. Com o fim da pandemia, que fechou as portas de muitos locais tradicionais por ali, a galeria vive uma nova fase.
Galeria Metrópole, projeto de Giancarlo Gasperini – Nelson Kon
Uma das desbravadoras dessa onda é Thaís Mozer, que abriu em setembro a loja de sua confecção, Senhor Coelho, no mesmo box onde até 2020 funcionou o bar Mandíbula. Parte da parede com tijolos à mostra que havia ali se manteve, assim como o balcão onde eram servidos drinques, que hoje é usado como banco para as peças ficarem expostas na vitrine. A escolha de se mudar para a Metrópole pareceu natural. Ela mora no prédio da frente, o Edifício Louvre.
Ambiente do Mandíbula, localizado na galeria Metrópole, no centro Tomás Cyntrynowicz/ Divulgação
Juliana Amorim é outra que se instalou na galeria recentemente. Na entrada da sua loja, Ju Amora, uma grande frase em neon decora a parede: “Seu real dever é salvar o seu sonho”. “Quero me lembrar disso todos os dias porque não é fácil empreender”, afirma Amorim, que foi atriz e já trabalhou na Europa. Em um ambiente colorido e tomado pelo cheiro de incenso, ela vende diferentes tipos de bancos que produz e pinta.
Ela começou no bairro de Perdizes, mas diz que sempre teve uma paixão pela Galeria Metrópole. Durante a pandemia, afirma ter encontrado um cenário de abandono por ali, com pouca gente circulando e muitas lojas fechadas. Ainda assim, resolveu fazer uma aposta. “Eu comecei a ver várias pessoas olhando para o centro de novo, porque o centro é muito efervescente e faz transbordar a criatividade”, afirma.
Retrato da nova geração de artistas e designers que estão mudando a cara da Galeria Metrópole, antes voltada a agências de turismo e que, após fechamentos na pandemia, vive uma nova fase. Na foto Ju Amora e sua obra, da loja homônima. – Folhapress
Desde que se Amorim se mudou para a Metrópole, alguns outros nomes da indústria criativa vieram junto. Lucas Lassen, por exemplo, abriu uma unidade da Paiol na galeria no mês passado. Seu estabelecimento é uma loja de artesanato brasileiro inaugurada há 15 anos que diz buscar desmistificar a ideia de que esse tipo de arte é elitizado. “A Paiol acaba sendo um link entre esses mundos, ela condensa e amplia, faz conexões, gera acesso para as pessoas conhecerem o Brasil“, diz o curador e empresário.
Ele mantém a sua unidade principal na rua Fradique Coutinho, em Pinheiros, além de outra loja no shopping Center 3, na avenida Paulista. A nova Paiol vem num plano de abrir outras. A clientela, no entanto, ainda é pequena na Galeria Metrópole. “Vamos precisar fazer um trabalho de formação de público”, afirma. “A gente está falando de jovens, de pessoas com menos de 40.“
Esse movimento de renovação de ares citado por ele vem acontecendo em todo o entorno —e não está imune às críticas de que promove uma gentrificação. “É preciso entender que a degradação do centro também vem pela exclusão. Eu a vejo como uma via de mão dupla. A gente tem que cobrar [a prefeitura e a segurança pública]“, afirma.
Conheça os novos nomes criativos da Galeria Metrópole
Lucas Lassen, curador e diretor da Paiol, loja que vende artesanato brasileiro Bruno Santos/FolhapressJuliana Amorim, dona da Ju Amora, seu ateliê de bancos Bruno Santos/FolhapressThais Mozer, fundadora da fábrica Senhor Coelho Bruno Santos/FolhapressO designer e estilista Antônio Castro, da Foz Bruno Santos/FolhapressO designer e arquiteto Paulo Alves e sua obra, do estúdio Paulo Alves Santos/Folhapress
Quem também traz brasilidade para a Metrópole é Antônio Castro, estilista e designer da Foz, fundada em 2020, que une técnicas de artesanato em peças desenvolvidas com grupos de Alagoas, seu estado natal. Ele se mudou para São Paulo em 2014 para fazer faculdade de moda e ficou no centro. Quando começou a procurar um lugar para abrir um espaço e receber os clientes em seu ateliê, olhou para a galeria com atenção.
É ali que ele vai inaugurar, nesta sexta-feira, dia 27, o espaço físico da Foz, com paredes brancas texturizadas, chão de cimento queimado verde, cadeiras de madeira e araras com flores e pássaros esculpidos. “As iniciativas que já estão ocupando esse espaço têm muito a ver com o que eu acredito”, diz. “Ainda há poucas marcas de roupa aqui, mas para o caminho de um design autoral faz sentido que a moda venha para cá também”.
Todos eles dão o crédito de olhar mais para a região ao arquiteto e designer de móveis Paulo Alves. Em 2020 ele se mudou para o edifício onde fica a Galeria Zarvos, bem em frente à galeria Metrópole, e abriu sua loja no térreo.
Retrato da nova geração de artistas e designers que estão mudando a cara da Galeria Metrópole, antes voltada a agências de turismo e que, após fechamentos na pandemia, vive uma nova fase. Na foto Paulo Alves e sua obra, do estúdio Paulo Alves. – Folhapress
Alves encabeçou o selo Criativos do Centro, que tenta dar uma unidade a esse movimento. “Eu fico no pé de todo mundo para vir para cá. De preferência para a minha galeria”, diz o designer, que espalhou vários de seus bancos por ela.
Apesar da fachada discreta da Zarvos, Alves faz da vitrine que dá para a calçada um cenário. Hoje sua loja tem 260 metros quadrados —que alugou pelo mesmo valor que, segundo ele, pagava em 60 metros quadrados na Vila Madalena.
O artista pernambucano Derlon também foi influenciado por Alves e abrirá seu ateliê na Zarvos nos próximos meses, com planos de instalar suas obras inspiradas na xilogravura popular. No primeiro andar, abrirá uma loja de tapetes, a By Kamy, que fará a sua estreia durante a Design Weekend, que acontece em março.
A edição de 2022 do evento, inclusive, já havia jogado luz sobre os artistas que estão no centro, uma vez que contou com circuito na região. Já neste ano, a Feira da Rosenbaum acontecerá na Zarvos, em várias lojas que estão vazias.
“Tem que ter um movimento coletivo. Quanto mais razões as pessoas tiverem para vir para o centro, mais elas vão vir”, diz Alves. Lassen, que tem loja em shopping e em galeria, acredita que a grande diferença entre os dois ambientes talvez seja o senso de coletividade que se criou ao redor da Metrópole —com seus 350 pontos comerciais— e dessa cena criativa que borbulha no centro pós-pandemia. “A gente está vindo reconstruir aqui juntos. A gente vai dar essa cara para a Metrópole.“
Galeria Metrópole Av. São Luís, 187, República, região central
Foz Espaço físico da marca do designer e estilista Antônio Castro, onde apesenta suas peças de roupa, bolsas e decoração. Inaugura nesta sexta, 27. 2º andar, loja 15
Ju Amora Loja de bancos decorados e produzidos por Juliana Amorim. Eles tem funcionalidades diferentes: servem para ser mesa, levar ao piquenique ou decorar o quarto da criança. 1º Andar, loja 15
Paiol Loja de artesanato brasileiro, com curadoria de Lucas Lassen. 1º Andar, loja 25
Senhor Coelho Espaço físico da fábrica de uniformes Senhor Coelho, fundada por Thaís Mozer. Além de servir para atender aos clientes, ela tem camisas e coleções de roupas para vender. 2º Andar, loja 40
Galeria Zarvos Av. São Luís, 258, Consolação, região central
Estúdio Paulo Alves Espaço onde ficam a mostra os trabalhos do designer e arquiteto Paulo Alves, focado na madeira. Térreo
Uma das principais lojas de artesanato e arte popular da cidade de São Paulo, a Paiol abre sua terceira unidade trazendo a brasilidade para o centro. No dia 10 de dezembro, sábado, sua nova loja na Galeria Metrópole abre as portas com um coquetel aberto ao público, com peças de mais de 400 artistas populares e comunidades artesanais das cinco regiões do país e com projeto assinado pelo escritório Ori Design de Interiores.
Segundo Lucas Lassen, fundador e diretor criativo da marca, a escolha pelo prédio histórico no centro de São Paulo faz parte de um movimento coletivo de retomada do centro pelos criativos. Nomes como Paulo Alves, Estúdio Niz, Ju Amora e Instituto Socioambiental já estão na região que, em breve, deve receber outros ateliês, showrooms, lojas e estúdios. “Desde o começo do ano, tem havido uma movimentação de artistas e designers com o objetivo de transformar a região da Avenida São Luís em uma espécie de distrito que mistura cultura, arte e design, assim como ocorre em várias outras cidades do mundo. A Paiol não poderia ficar de fora”, afirma.
Lucas Lassen, diretor criativo da Paiol e Peça de artistas Sil da Capela – Fotos Alexandre Disaro
A Galeria Metrópole, que carrega o título de um dos prédios mais icônicos da cidade, foi projetada em 1960 pelos arquitetos Salvador Gandia e Gian Carlo Gasperini. O prédio se tornou uma referência arquitetônica importante na cidade por ser um projeto que se integra ao espaço urbano ao seu entorno, misturando comércio e espaços culturais, algo que foi se dissipando ao longo do tempo e dando lugar a agências de viagens e casas de câmbio.
Galeria Metrópole – Foto R.F. Pereira
“Na pandemia, muitas dessas lojas acabaram fechando e designers e artistas – que sempre tiveram a vontade de estar no centro – foram ocupando. Isso vem de uma percepção que compartilhamos que é a ideia de que a Galeria deve fazer jus à sua função inicial de refletir um pouco da criatividade, da cultura e do jeito de ser do brasileiro. Uma das melhores formas de fazer isso é trazendo a produção criativa brasileira para o centro, tanto da cidade, quanto da discussão”, finaliza.
A abertura da loja deve ocorrer no sábado, 10 de dezembro, das 13h às 20h, na Galeria Metrópole, na Avenida São Luís, 187, na República, São Paulo.
Serviço
Abertura | Paiol Metrópole Onde: Galeria Metrópole – Avenida São Luís, 187, República – São Paulo Local: 1º andar, loja 25 Quando: Sábado, 10 de dezembro de 2022 Funcionamento: de Segunda a Sábado, das 11h às 19h Estacionamento no local Pet friendly
Enaile Almeida e Laura Portugal sob orientação de Alessandra Dantas e Luiza Glória. (site UFMG.BR)
No Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, a cerâmica é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do estado. Para diversas famílias, os processos de transformação do barro representam uma força ancestral de cultura e renda. Nessas comunidades, jovens artesãs têm garantido a conservação das tradições do artesanato do vale possibilitando que esse conhecimento siga ecoando para as novas gerações. Esse cenário foi apresentado na reportagem da Rádio UFMG Educativa, que trouxe os relatos das artesãs Andreia Andrade e Cibele Dias, além da perspectiva do fundador da loja de artesanato Paiol, Lucas Lassen.
Herança Cultural
Muitas das jovens que hoje se dedicam aos processos de transformação do barro são herdeiras das grandes mestras da cerâmica do Vale. Uma delas é Andreia Andrade, do Vale do Araçuaí. Sua avó, Isabel Mendes da Cunha, ou Dona Isabel, é internacionalmente reconhecida como a maior “bonequeira” de Minas. Em sua comunidade, construiu uma verdadeira escola de arte, onde diversos familiares e amigos aprenderam as técnicas tradicionais da cerâmica. Criada em meio ao artesanato, Andreia Andrade desenvolveu o interesse pelo ofício ainda na infância, e hoje é uma das principais responsáveis pela preservação dos conhecimentos que herdou de Dona Isabel. “Muita gente sobrevive fazendo bonecas e minha avó sempre teve a disposição de ensinar. Esse é o mesmo interesse que eu tenho: ensinar. Em Santana, ela deu um ofício para muita gente”, compartilha a artesã.
Renovação e Tradição
Mesmo buscando garantir a preservação das raízes da cerâmica, as novas gerações de artesãs exploram a reinvenção das técnicas tradicionais. De acordo com a artesã Cibele Dias, de 21 anos, “algumas práticas, como a pintura, mudaram muito nos últimos anos. É importante saber renovar sem abrir mão da tradição.”
Escute a reportagem da Rádio UFMG Educativa:
Produção Esta reportagem foi realizada por Enaile Almeida e Laura Portugal sob orientação de Alessandra Dantas e Luiza Glória. (Rádio UFMG Educativa)