A história de São Francisco de Assis e sua influência no artesanato brasileiro

A vida de um dos mais populares santos católicos é relembrada todos os anos em 4 de outubro, data de sua morte, em 1224

Por Redação Casa e Jardim em: A história de São Francisco de Assis e sua influência no artesanato brasileiro | Artesanato | Casa e Jardim (globo.com)

07/10/2024 06h35  Atualizado há um dia

Leonildo, artesão pernambucano, representa um santo festivo, ao passo que a peça de Elizabeth Marques, do MS, segura uma pequena onça, ressaltando o título de padroeiro dos animais — Foto: Penellope Bianchi / Divulgação

No Brasil, país com o maior número de católicos do mundo, São Francisco de Assis é um dos santos mais representados na arte popular. Defensor dos mais vulneráveis e padroeiro dos animais, ele se tornou uma das principais figuras da história da Igreja Católica por abdicar da riqueza para dedicar a vida aos pobres. Sua existência é celebrada todos os anos em 4 de outubro, data de sua morte, em 1224.

“Embora ele seja um santo católico, por aqui foi se transformando em uma figura que transcende a religião, passando a provocar apreço e identificação por conta das representações que dialogam com a brasilidade”, comenta o curador Lucas Lassen, responsável pela Paiol, marca que atua com artesanato e arte popular brasileira e conta com mais de 20 modelos diferentes do santo.

As representações do santo no artesanato mesclam características tradicionais com elementos regionais da cultura popular brasileira. “Mesmo mantendo a típica túnica marrom, com uma corda amarrada à cintura e sandálias simples de couro, alguns artesãos e artistas, a partir de uma mesma referência, imprimem características que remetem ao bom-humor e à afetividade do brasileiro”, diz.

A artesã Alice, de São Paulo, usa técnica com palha, enquanto a mineira Neia traz o santo em um altar adornado com flores — Foto: Penellope Bianchi / Divulgação

São Francisco ganha adaptações a partir de técnicas e materiais distintos em diferentes regiões do país. O santo da artista Elizabeth Marques, do Mato Grosso do Sul, por exemplo, segura uma onça-pintada, animal típico do estado, em referência ao título de padroeiro dos animais.

Já o São Francisco do artesão pernambucano Leonildo carrega uma sanfona com as cores da bandeira do estado. No universo da ceramista alagoana Sil da Capela, ele está sentado debaixo de uma jaqueira, uma das marcas do trabalho da artista.

A história

Nascido entre 1181 e 1182 em Assis, na Itália, Giovanni di Pietro di Bernardoniera vem de uma família rica e influente na região. Filho de pai italiano e mãe francesa, acabou ganhando o apelido de Francesco (o francês), por conta das constantes viagens de negócios do pai a França dedicadas ao comércio de tecidos.

A vida abastada e distante dos problemas da época o fez crescer como um jovem conhecido por esbanjar dinheiro e ser cercado de luxos, ambição e a busca por poder e reconhecimento. Sem muito apreço pelos negócios da família e sem a intenção de seguir os passos do pai, por volta dos 20 anos, decidiu se tornar soldado para lutar em uma guerra interna de Assis contra a região da Perúgia.

Em busca de fama e grande glórias, acabou sendo capturado e preso por cerca de 1 ano, no qual definhou, passou fome, contraiu doenças e começou a refletir sobre a vida que tinha levado até então. Ao retornar a sua casa, tentou voltar à vida regada a festas e luxos, mas seu encantamento foi diminuindo ao poucos.

A arte popular brasileira tem diversas representações diferentes de São Francisco de Assis — Foto: Penellope Bianchi / Divulgação

Segundo diversos biógrafos, foi neste momento que ele começa a ter rompantes de caridade, doando dinheiro, roupas e até tecidos da empresa de seu pai aos pobres da região. Em uma de suas passagens mais conhecidas, ao encontrar um rapaz com lepra, embora sempre tenha tido uma aversão aos doentes, foi tomado por compaixão e acabou o beijando, o que mais tarde também o fez passar a fazer visitas regulares a hospitais e enfermos.

Segundo historiadores, o chamado para a servidão a Deus se deu por volta dos 25 anos, no momento em que ele rezava na Igreja de São Damião, em Assis, quando teria ouvido o crucifixo falar com ele, repetindo três vezes a frase: “Francisco, repara minha casa, pois olhas que está em ruínas”.

Essa experiência o fez vender tudo o que tinha e levar o dinheiro para o padre de São Damião, pedindo ainda permissão para viver com ele. Seu pai foi buscá-lo contrariado e disse que, se ele pretendia seguir com a decisão, deveria abdicar de sua herança. Francisco renunciou, então, à vida abastada e passou a se dedicar exclusivamente à religião, pedindo esmolas para obras de caridade.

O São Francisco de barro da ceramista alagoana Sil da Capela está sentado debaixo de uma jaqueira — Foto: Paiol / Divulgação

Após conseguir a atenção de boa parte da cidade para seus atos de renúncia de bens em prol da caridade, ele decidiu escrever um manuscrito sobre a nova ordem, que viria a se tornar a Ordem Franciscana, com pilares baseados no amor, na humildade, na castidade e na obediência aos ensinamentos religiosos.

Ao longo dos anos de peregrinação, passou a olhar também para a natureza e os animais como parte da obra divina, fazendo-o ficar conhecido por defender, inclusive, a presença de bichos nos cultos religiosos. Hoje, este é um dos motivos por ser consagrado como padroeiro dos animais.

O reconhecimento como santo foi feito pelo papa Gregório IX, em 1126, dois anos após a sua morte, trazendo ainda mais força para o seu legado, que se estendeu ao longo dos anos e fez, inclusive, o atual Papa Francisco escolher o seu nome em homenagem a São Francisco de Assis.